sábado, 20 de fevereiro de 2021

A adiada enchente

Burt Glinn

Velho, não.
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.

Me tornei antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E eu a esperei
como um rio aguarda a cheia.

Gravidez de fúrias e cegueiras,
os bichos perdendo o pé,
eu perdendo as palavras.

Simples espera
daquilo que não se conhece
e, quando se conhece,
não se sabe o nome.

Mia Couto, in: Poemas escolhidos ed. Companhia das Letras

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Dobra

Vivian Maier
Meu corpo acostumou-se com o pouco 
e minha alma caminha. 

Tudo é ruína, 
nada me dói, 
não há angústia, 
mas algo se instala e me olha do alto 
na torre clara: 
uma face de vento 
desfeito de brisa. 

Quero tão pouco e de nada sorvo 
e olho submersa o mundo entorno 

Mas, nesta casa de Água, 
tudo se dissolve e nem o rastro sobra 
na bruma da Água nebulosa.

Vivo com os corais que levo dentro. 
Comigo o vento alto de maresias. 

Sim, cabe o mundo no silêncio 
sobresi dobrado de qualquer búzio.

Lívia Natália, in: Correntezas e outros estudos marinhos, Edição da autora

domingo, 10 de janeiro de 2021

diagnóstico

Sentimento faz mal pra saúde

Cacaso, in: Poesia completa. Ed. Companhia das Letras

domingo, 27 de dezembro de 2020

O SOBREVIVENTE

Greg Lin Jiajie

                                                                                                                                                               A Cyro dos Anjos

Impossível compor um poema a essa altura da evolução
[da humanidade.
Impossível escrever um poema – uma linha que seja –
[de verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades
[mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.

Um sábio declarou a O Jornal que ainda
falta muito para atingirmos um nível ra-
zoável de cultura. Mas até lá, felizmente,
estarei morto.

Os homens não melhoraram
e matam-se como percevejos.
Os percevejos heroicos renascem.
Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar
seria um segundo dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)

Carlos Drummond de Andrade, in: Alguma poesia. Ed. Companhia das Letras


sábado, 5 de dezembro de 2020

Processos

Nancy Liang

A vida
nos separa
de
todos
os processos
do universo. 

Existirmos
é o
que nos faz.

William Soares dos Santos, in: Poemas da meia-noite (e do meio-dia). Ed. Moinhos

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

O amor

o amor é feito bala perdida 
que acerta um desavisado 

ao cruzar a rua 
ao dobrar a esquina 

às vezes vem num soco 
às vezes vem num grito 
o amor às vezes é isso 

uma panela de água fervendo 
no rosto de alguém querido 

às vezes esmola 
às vezes migalha 

que se devolve com um tiro 
ou acaba em facada 

o amor tem medo da vida 
uma hora eleva 
na outra arrasta 

desconfia da sorte 
tem medo da falta 

o amor corresponde à entrega 
com uma rasteira e às vezes mata 
de tirania 
de asfixia 
de ciúme 
de raiva 

como alguém que se alimenta 
e de repente engasga 

Luna Vitrolira, in: Quando a delicadeza é uma afronta / Cult: Antologia poética

terça-feira, 27 de outubro de 2020

varal

Felipe Barceló

Suas camisetas
colorem
o vento

*

Seus jeans
atualizam
a paisagem

*

Sua camisa branca
rendida
com
ao fundo
a noite
ampla

Ana Martins Marques, in: Da arte das armadilhas. Ed. Companhia das Letras

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

IRMÃ OUTSIDER

Linoca Souza

Nós nascemos num tempo pobre
nunca tocando
a fome uma da outra
nunca
partilhando nossas cascas
por medo
do pão transformado em inimigo.

Agora criamos nossos filhos
para respeitarem a si mesmos
assim como uns aos outros. 

Agora você tornou a solidão
sagrada e útil
e não mais necessária
agora
sua luz brilha intensamente
mas quero que você
saiba
sua escuridão também
é fértil
e supera o medo.

Audre Lorde, in: A unicórnia preta. Ed. Relicário

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Quatro da madrugada


Janet Delaney

Hora entre a noite e o dia.
Hora de um lado para o outro.
Hora para os trintões.

Hora arrumada para o galo cantar.
Hora em que a terra nos repudia.
Hora em que o vento de estrelas extintas assobia.
Hora do será-que-de-nós-nada-vai-restar.

Hora vazia.
Surda, vã.
O fundo de todas as outras horas.

Ninguém se sente bem às quatro da madrugada.
Se as formigas se sentem bem às quatro da madrugada
— felicitemos as formigas. E que soem as cinco
se é para continuar vivendo.
 
Wislawa Szymborska, in: Para o meu coração num domingo. Ed. Companhia das Letras

terça-feira, 22 de setembro de 2020

versos tecidos em silêncio

María Cosmos



ausências sonoras
latejam lembranças inabitáveis
no interior de meus ouvidos.

Louise Queiroz, in: Girassóis estendidos na chuva. Ed. ParaLeLo13S

quarta-feira, 22 de abril de 2020

amor (s.m.)

é o resumo do infinito. é o laço entre dois corações. é um sorriso frouxo demais. é quando a gente escuta o mundo inteiro no silêncio de alguém. é o ópio do coração. é um cafuné bem-feito. é encontrar um lar em outro peito.

às vezes tem quatro patas e um focinho. às vezes tem nome. e quando vai embora…

João Doederlein, in: O livro dos ressignificados. Ed. Paralela