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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

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Lawatt
Há cidades acesas na distância,
Magnéticas e fundas como luas,
Descampados em flor e negras ruas
Cheias de exaltação e ressonância.

Há cidades acesas cujo lume
Destrói a insegurança dos meus passos,
E o anjo do real abre os seus braços
Em nardos que me matam de perfume.

E eu tenho de partir para saber
Quem sou, para saber qual é o nome
Do profundo existir que me consome
Neste país de névoa e de não ser.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in: Poesia, Prefácio de Pedro Eiras. Ed. Assírio & Alvim

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Inverno

Persona
Este Inverno é longo gélido
E confuso
Na varanda só o vento passa
E o vento olha-nos de esguelha quando passa

Nenhum poema aflora
Entre as linhas finas e aéreas
Da página em branco

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Mais do que tudo, odeio
Tantas noites em flor da Primavera,
Transbordantes de apelos e de espera,
Mas donde nunca nada veio.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in: Poesia I, 1944 / Poemas Escolhidos. Seleção Vilma Arêas. Ed. Companhia das Letras

Meio-dia

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo,
Parece bater palmas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in: Poesia I, 1944 / Poemas Escolhidos. Seleção Vilma Arêas. Ed. Companhia das Letras

Mar

I

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

II

Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in: Poesia I, 1944 / Poemas Escolhidos. Seleção Vilma Arêas. Ed. Companhia das Letras

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Instante

Brilho de Uma Paixão
Deixai-me limpo
O ar dos quartos
E liso
O branco das paredes

Deixai-me com as coisas
Fundadas no silêncio

Sophia de Mello Breyner Andresen, in: Livro Sexto, 1962 / Poemas Escolhidos. Seleção Vilma Arêas. Ed. Companhia das Letras

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Será possível

Será possível que nada se cumprisse?
Que o roseiral a brisa as folhas de hera
Fossem como palavras sem sentido
- Que nada sejam senão seu rosto ido
Sem regresso nem resposta - só perdido?

Sophia de Mello Breyner Andresen, in: O Nome das Coisas, 1977. / Poemas Escolhidos. Seleção Vilma Arêas. Ed. Companhia das Letras

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Jardim

Deviantart
Alguém diz:
“Aqui antigamente houve roseiras” –
Então as horas
Afastam-se estrangeiras
Como se o tempo fosse feito de demoras.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in: Poesia I, 1944. / Poemas Escolhidos. Seleção Vilma Arêas. Ed. Companhia das Letras

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Barcos

Dormem na praia os barcos pescadores
Imóveis mas abrindo
Os seus olhos de estátua

E a curva do seu bico
Rói a solidão.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in: Coral, 1950. / Poemas Escolhidos. Seleção Vilma Arêas. Ed. Companhia das Letras

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Promessa

És tu a Primavera que eu esperava,
A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instante.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in: Dia do Mar, 1947. / Poemas Escolhidos. Seleção Vilma Arêas. Ed. Companhia das Letras

sexta-feira, 6 de maio de 2011

hoje eu quero a leveza das coisas...


Mesmo sem saber se jamais chegarei,
apetece-me rir e cantar em
honra da beleza das coisas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Se tanto me dói que as coisas passem


Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem.

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Pudesse eu

 Pudesse eu não ter laços nem limites 
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites

Suspensos na surpresa dos instantes.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in: Poesia I, 1944
. / Poemas Escolhidos. Seleção Vilma Arêas. Ed. Companhia das Letras

Mãos

Côncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in: Coral, 1950. / Poemas Escolhidos. Seleção Vilma Arêas. Ed. Companhia das Letras

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Biografia

Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-me na luz, no mar, no vento.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in: Mar Novo, 1958. / Poemas Escolhidos. Seleção Vilma Arêas. Ed. Companhia das Letras

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Nunca mais

Nunca mais
Caminharás nos caminhos naturais.

Nunca mais te poderás sentir
Invulnerável, real e densa -
Para sempre está perdido
O que mais do que tudo procuraste
A plenitude de cada presença.

E será sempre o mesmo sonho, a mesma ausência.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in: Poesia I, 1944. / Poemas Escolhidos. Seleção Vilma Arêas. Ed. Companhia das Letras