Mostrando postagens com marcador Silvana Guimarães. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Silvana Guimarães. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 15 de abril de 2011

bolero para uma tarde de granizo

Enquanto leio, meus seios estão a descoberto. É difícil concentrar-me ao ver seus bicos. Então, rabisco as folhas deste álbum. Poética quebrada pelo meio. Palavra vendada. Vida sem cura. Tudo o que tira o sono. Passarinho pegando fogo enquanto voa.

Taí. Eu fiz tudo. Contei carneirinhos. Rasguei sombras. Apaguei reticências. Enredei lembranças. Remendei o passado. Soltei o verbo e os cachorros. O que a gente não é capaz de fazer para não perder o resto da esperança?

Uma borboleta gira à minha volta. Treme no meu ombro antes do voo fatal: lembrança do casulo.

Atrás de morro, morro. E é de amor.

Tenho uma janela aberta e límpida à minha espera:

Silvana Guimarães

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Modo de amar

Katia Chausheva
não fales das tempestades
que colhes por debaixo dos
meus frágeis vestidos escuros
(não contes como sou feita de escuros)
nem da fúria com que os arrancas de mim

não fales do meu anel
de como envolve teu dedo
(não contes que dedo)
nem o que eu faço com ele
pra te ouvir chorar.

Silvana Guimarães

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Sodoma

Corria.
O pensamento sem fôlego tentava registrar todos os seus abandonos. Corria. O que que era mais desespero deixar para longe: um pé de figo, lua cadente, vestido carmim, uma esquina, uma escada — corria — um terço de caroços de azeitona, anel de pedra falsa, colônia barata, xícara sem asa, algumas roupas de baixo, três ou quatro retratos — corria — discos, livros, assombros, avencas ao vento, musgo, um jardim, uma janela. Corria ao lado de A, pensando em B. Aquelas tardes de cores lentas sussurros incendiando o silêncio risadas lambuzadas a sua língua a minha língua nunca mais as suas mãos. Onde a vertigem? Corria. Relâmpagos matam mais do que vulcões, furacões e terremotos. Corria com A. Correria com A pelo resto da vida. Qual vida qual vida qual vida qual? Para sempre, tão iguais como o são uma saracura e um ramo de alecrim. Corria. Os dias monótonos medíocres — suava — os discursos insossos as noites inapetentes. Entre a sombra e a sombra, para sempre. Qual vida? Qual? Corria.

Num repente, a valentia, última chance: olhou para trás.

Pronto.

Agora, estátua de sal. E a sede.

Silvana Guimarães