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quarta-feira, 12 de março de 2014

Quarto de costura

Minha mãe me ensinou a costurar
meu pai me ensinou a escrever,
escrevo as costuras dela
e costuro as palavras dele.
Costuro na máquina de escrever
escrevo na máquina de costura
cada babado e vírgula,
cada bainha e dois pontos
franzidos ou nervurados.
Minha caixa de linhas é colorida
minha memória é de ponto de sombra,
atrás, cheio de histórias.
Escrevendo costuro cada ponto e desaponto,
costurando escrevo minha roupa
e minha lembrança,
vivendo me lembro das palavras do meu pai
e das mãos da minha mãe.
Sendo sou matiz bordado
no entremeio dos meus pais.

Wania Amarante, in: Quarto de Costura. Ed. Miguilim

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Alinhavos

Deviantart

Alinhavei um amor novo
e costurei com muito cuidado.
Já não se fazem mais linhas como antigamente,
na primeira vez que amei, a costura se rompeu.

Wania Amarante, in: Quarto de Costura. Ed. Miguilim

Conserto

Preciso consertar minha alma
e cerzir meu coração,
coser ponto por ponto os encontros
entrelaçar os fios rebordando meu monograma.
Lavar com cuidado e sabão de coco
esse coração encardido pelo guardado
e manchado de armário.
Minha mãe dizia:
guarda o branco em anil,
senão, amarela.
Lavar com amor e secar ao sol,
engomar ligeiramente em maisena,
passar a ferro quente.
Esticá-lo na vitrine da cristaleira
para que eu o veja sempre e não me esqueça
que o coração guardado se mancha de tempo perdido.

Wania Amarante, in: Quarto de Costura. Ed. Miguilim