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quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Ler e lar

Jess Ruby

Não leio mais: releio. 
Com exceções, volto aos livros 
de antes e que surgem novos
de novo ou então velhos como nossos avós.

São amigos tão dedicados 
tão próximos agora, que são
como parentes ou até mais: 
pais, namoradas, primos-irmãos.


E a gente se lembra do momento
de quando em quando e lugares
quando pegamos pela primeira vez 
os livros novos em folha. 

E aí se abre com faca 
cortando com um ruído certo, reto 
as páginas duplas com seu cheiro firme
e se preciso folheando-as. 

Delicadamente, com a ponta dos dedos 
molhados na boca, e lendo logo
o poema, o romance, o ensaio
abertos na mesa do escritório do meu pai. 

Armando Freitas Filho, in: Medida do silêncio: uma antologia comemorativa. Ed. Companhia das Letras

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

COMUNICAÇÕES

Ego, 2012. MariAn [the Fog]
Eu falo de mim – daqui –
desta central
pelo microfone do corpo
por esse fio que vem do fundo
eu me irradio

assim, numa transmissão de
sustos e rangidos
veia e voz, ao vivo, sob tanto
sangue: pantera escarlate
que passa e pisa

e se espatifa nesse chão
pata de lacre
grito, pingo sobre o alvo
tão tátil da minha carne
nos panos

repentinos do meu espanto
nas janelas
onde me debruço sucessivo
e vário, sequência de mim
em fotonovelas

me desdobro – quadro por quadro
nos desenhos
de dentro do que sou e projeto
aos poucos, plano e pausa
para fora

com a vida que me veste
pelo avesso:
filmes de sêmen onde publico
figuras de suor e celulóide
numa lâmina

de velocidade e de lembrança
em fotogramas
de esperas e procuras – falha
folha de slides-células, sopro
e pulso

página de pele em que escrevo
o uso
a articulada letra do meu gesto
o rascunho de unhas e rasuras
feito à unha

nas nuas marcas do meu corpo
no espaço
e nos lençóis da claridade
monograma, silhueta, cadência
e a fala

que se imprime nesta fita
neste sulco
a linguagem como um fim
a linguagem por um fio
e a morte em morse.

Armando Freitas Filho, in: De corpo presente, 1975. Coleção Poesia Viva

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Ar

Talita Leal
Música de árvores.
Não a das folhas e ramos.
Mas a outra, para percussão solo.
Madeira, raízes, cascas, nós, galhos.
Tudo que pede machado, corte, pancada.
O que é duro - áspero - bate, e estaca.
O que estala e cresce da terra contra as estrelas.

Armando Freitas Filho, in: Cabeça de homem, 1991. Coleção Poesia Viva

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Flash

deviantART Lillyfly
Repente
a mente
sente
a árvore
desde
a semente

sente

mão vegetal
em tenra parede
fremente

braço animal
contraído
porão mineral
ruído

mental

folhafalhafolha
f a r f a l h a
vento – navalha

contra o cimento

meu pensamento

Armando Freitas Filho, in: Dual, 1966. Coleção Poesia Viva