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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Game Over

Alone Gut
Então fica tudo assim
o dito pelo não dito
o feito pelo não feito
o sonho pelo não sonho
o jeito pelo sem jeito

então, tudo resolvido
as contas pagas, pagas
as contas não pagas, dane-se
nas dúvidas, mais
nas certezas, dá-se um jeito

então, deixa tudo como está
as fotos a gente rasga
os bilhetes a gente estraga
as cores a gente apaga
a gente,
a gente engasga

então,
passar bem
fica feliz
é isso aí
e tudo bem.

André Gonçalves, in: Coisas de Amor Largadas na Noite. Ed. Ideias Inc.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Relógio:

1. caixa metálica, plástica ou de madeira onde se esconde o tempo; 2. boi-da-cara preta dos assalariados; 3. Adolf Hitler dos apaixonados; 4. se sozinho, uma certeza. 5. se em grupo, várias dúvidas; 6. salão de baile dos ponteiros; 7. garoto propaganda da Suiça; 8. se digital, beijo técnico; 9. conglomerado mundial que fabrica horas, minutos e segundos; 10. a casa dos cucos; 11. banda musical que só compôs a música Tic-Tac; 12. na biologia, animal que se alimenta de futuro, em mínimas porções; 13. pequeno ditador que aprisiona sonhos; 14. rede mundial de vigilância criada pela Associação Internacional dos Chefes; 15. guru da seita Coelho de Alice; 16. indivíduo bipolar que corre muito quando não se quer e rasteja lentamente quando não se precisa; 17. se parado, o tempo empalhado. (Ex.: "No meu relógio, amor, os ponteiros decidiram fazer greve por tempo indeterminado, para que possamos dançar e dançar e dançar enquanto a vida sussurra para o mundo inteiro a nossa música e a noite dorme até mais tarde e decreta feriado no planeta".)

André Gonçalves, in: Coisas de Amor Largadas na Noite. Ed. Ideias Inc.

terça-feira, 26 de abril de 2011

anjo

Lágrimas de anjo viram jujubas. Vermelhas, as de paixão. Que são as mais saborosas, apesar de mancharem o travesseiro. Nosso anjo viu os olhos azuis de uma anja e neles encontrou o reflexo d'Ele. Antes que me pergunte, anjos trepam. Anjos não têm sexo. Mesmo assim, fazem. Amor de anjo é puro, mas o caminho para Vênus anda cheio de meteoritos que machucam as asas. No depois, não fumam. Balançam os pezinhos, e agitam os bracinhos, e assim fazem aquela brisa que sentimos no começo da manhã. Toda brisa que bate no rosto das gentes numa manhã de sol é orgasmo de anjo. Sorria para as brisas! Mas nosso anjo, sempre um tanto quanto desbocado, ensaca jujubas roxas. "Merda!". Jujubas roxas são lágrimas que anjos derramam quando sentem saudades.

André Gonçalves, in: Coisas de Amor Largadas na Noite. Ed. Ideias Inc.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Verbete: sexo

Alone Gut
1. marca de sapatinhos de lã azuis ou cor-de-rosa; 2. aquilo naquilo, naquela ou naqueloutro; 3. espécie de polvo que comumente habita lençóis ou tapetes e pode ter entre 8 e 960 tentáculos; 4. conglomerado intercontinental que fabrica “uis”, “ais”, “ohs” e afins em 1257 idiomas; 5. irmão siamês do tesão; 6. antônimo de cadáver (exceto para necrófilos); 7. momento que antecede sonhos em technicolor; 8. festa no céu; 9. o homicídio do hímem; 10. animalzinho que se alimenta de feromônios; 11. esconde-esconde em versão de adultos; 12. tranqüilizante natural à base de gemidos; 13. matéria-prima das sex-shops; 14. um dos apelidos do amor; 15. o pai de todas as guerras; 16. nômade que acampa em tendas iluminadas com neon, à beira da estrada; 17. motivo de dúvida e inquietação entre a classe angelical; 18. na geometria clássica, o encaixe perfeito entre côncavo e convexo; 19. na astrofísica, instante em que nascem os corpos celestes; 20. primeiro estágio da gravidez; 21. segundo Freud, o que leva o homem a chupar chupeta; 22. na economia moderna, bem complementar ao látex; 23. um dos motivos pelos quais elevadores ficam presos entre dois andares; 24. Gênese. (Ex.: “Acolhe-me em teu sexo, moça de sorriso largo, para que a vida seja a fusão entre duas meias-mortes e, o futuro, algo guardado no bolso traseiro esquerdo de um jeans despido e esquecido por sobre a mesa do jantar".)

André Gonçalves, in: Coisas de Amor Largadas na Noite. Ed. Ideias Inc.

sábado, 9 de abril de 2011

do amor


- Amor, sopra minha nuca. - Soprar sua nuca? Por que? - É que me deu uma vontade tão grande de ser passarinho... 

 André Gonçalves, in: Coisas de Amor Largadas na Noite. Ed. Ideias Inc.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Classificado

Alone Gut
Vendo alma seminova, em bom estado. Algumas manchas na altura do peito, mas nada que três boas manhãs de sol e uma ida ao circo não atenuem. Adaptável a praticamente todos os tamanhos de invólucros corporais. Bom perfume, mesmo não tendo cheiro de talco. Único dono, apesar de algumas investidas de especuladores infernais. Dou preferência a quem tenha os estranhos hábitos de sorrir quando olha o céu e de sonhar sem fechar os olhos. Exigência: o interessado deve se comprometer a alimentá-la pelo menos duas vezes por dia com Quintanas sabor tradicional ou cambalhotas sabor framboesa. Tratar com o proprietário.

André Gonçalves, in: Coisas de Amor Largadas na Noite. Ed. Ideias Inc.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

mini-conto

Nonnetta
Ele.
Ela.
Já.
Mas nem
estão
sabendo.

André Gonçalves, in: Coisas de Amor Largadas na Noite. Ed. Ideias Inc.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Casa:

Nonnetta
1. conjunto de paredes dispostas em forma de coração; 2. lugar de onde se sai, mas não se deixa; 3. o outro nome de família; 4. almofada macia usada pelos guerreiros após grandes batalhas; 5. trampolim para a felicidade; 6. objeto de desejo dos recém-unidos; 7. segundo a ciência moderna, o centro dos sistemas solares; 8. local onde se está melhor protegido das tempestades; 9. sobrenome da Paz; 10. caixa de segredos com lacre inviolável; 11. coletivo de cumplicidade; 12. habitat natural do bicho comumente chamado de "amigo"; 13. objetos que, quando em cima de outros, chama-se de "edifício"; 14. baía de águas calmas; 15. apêndice dos quintais; 16. nome popular de doce chamado Lar; 17. tataraneta das cavernas; 18. na geografia, o lugar do mundo onde o dia amanhece com cheiro de café; 19. agrupamento de tijolos unidos pelo cimento da marca Confiança; 20. motivo da existência das passagens de ida-e-volta. (Ex.: "Minha casa, meu amor, não tem paredes, nem janelas, nem telhado. Minha casa tem olhos, cabelos, arrepio e o maior de todos os sorrisos. Minha casa é você.")

André Gonçalves, in: Coisas de Amor Largadas na Noite. Ed. Ideias Inc.

Abraço:

Alone Gut
1. habitat natural do carinho; 2. base alimentar de animal popularmente chamado de amor; 3. verdadeiro objetivo do gol; 4. porto seguro; 5. prozac natural; 6. beijo de umbigos; 7. transfusão de afeto; 8. ato de envelopar quem se ama; 9. Espantalho de saudades; 10. felicidade cheia de braços; 11. abrigo anti-aéreo; 12. sistema de calefação ecologicamente correto; 13. plano B de quem dá adeus; 14. apelido de um senhor de nome amplexo; 15. AR 15 do tamanduá; 16. aquilo que Gil manda para Terezinha, para o Chacrinha e para a torcida do Flamengo; 17. antônimo de longe. (Ex.: “Vem, moça de abril, e me dá um abraço com seu sorriso e me leva pra bem longe da saudade de quem um dia ainda vamos ser.”)

André Gonçalves, in: Coisas de Amor Largadas na Noite. Ed. Ideias Inc.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Tupperware

Meteu a mão no peito e tirou dele o coração, que
guardou numa tupperware com tampa amarela
na prateleira mais baixa da geladeira. Só para se
prevenir. Nunca se sabe o que pode acontecer
quando se leva o coração a uma despedida.

André Gonçalves, in: Coisas de Amor Largadas na Noite. Ed. Ideias Inc.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Lágrima:

1. saudade na forma líquida; 2. mistura de água do mar com alma moída; 3. secreção aquosa expelida através dos canais lacrimais quando se espreme o coração; 4. felicidade que escorre pela face; 5. estrela cadente que despenca do céu dos olhos de quem ama; 6. motivo da existência de lenços brancos; 7. resultado da fusão de sentimentos contraditórios quando submetidos a altas temperaturas; 8. nome comumente dado ao fim de um romance; 9. momento que antecede o adeus; 10. pedaço de ontem; 11. antônimo de desprezo; 12. matéria-prima das jujubas; 13. grande inspiração dos poetas; 14. fado de Amália Rodrigues; 15. na Europa, folha que cai da árvore quando chega o outono; 16. na infância, associada ao berro, alarme de fome; 17. na velhice, fome de colo; 18. névoa úmida que cobre o mundo quando chove dentro da gente. (Ex.: "Não, isso não é lágrima, não. É que a felicidade virou mar dentro de mim e a maré acabou de subir".)

André Gonçalves, in: Coisas de Amor Largadas na Noite. Ed. Ideias Inc.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Mini-conto

Amanda Cass
Quando finalmente
conseguiram arrombar a
porta do quarto, tudo que
encontraram foi uma
pequena poça de água
salgada ao pé da cama e
um bilhete amassado:
- Desculpe. Vai ser melhor para nós.

André Gonçalves, in: Coisas de Amor Largadas na Noite. Ed. Ideias Inc.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Quarando

Nonnetta

sei que amor não se pendura
mais é preciso deixar ao sol o coração
para que seque
que escorra
para que não morra
não mofe em gaveta escura.

André Gonçalves, in: Coisas de Amor Largadas na Noite. Ed. Ideias Inc.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

carne de sol

Amanda Cass
pendura o coração ao sol, menina
que é de luz que se alimenta
esse músculo que estica e rasga e se arrebenta
sangra, arde, dói, mas não aguenta
bater sem cor, sem lágrima,
sem céu, sem nuvem, sem vento
levanta o olhar e vê
e, quando você menos perceber,
tum tum tum tum tum tum tum
ele vive.

André Gonçalves, in: Coisas de Amor Largadas na Noite. Ed. Ideias Inc.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Mar:

1. grande extensão de água salgada que cobre a maior parte do coração; 2. estrada ondulada pintada de verde ou azul; 3. galáxia que eventualmente goteja através dos olhos; 4. medicamento homeopático utilizado para cura de males não corpóreos; 5. um dos membros de uma família de sete; 6. país onde nascem as pérolas; 7. beirada do mundo; 8. constelação de peixes; 9. ser assexuado que vive a lamber corpos e que, quando muito irritado, costuma engoli-los vivos; 10. tábua onde o vento brinca de fazer renda; 11. cômodo que mais valoriza um apartamento novo; 12. conteúdo das conchas; 13. o outro nome do silêncio; 14. grande corporação internacional que fabrica náufragos; 15. espelho utilizado pelo céu em dia de festa; 16. independente da cor, a cor dos olhos de quem é objeto de amor; 17. terra natal de Jacques Costeau; 18. amigo traiçoeiro que separa e une enquanto sorri; 19. adeus que vai e vem; 20. lugar para onde corre o rio formado pelas dores do mundo; 21. o namorado da lua; 22. monarquia absolutista comandada por Netuno; 23. causa da existência da bacalhoada; (Ex.: "O mar é salgado, amor meu, porque houve um dia, muito longe, em que eu ainda não tinha encontrado você. E a vida, ah que vida? Escorria, seca, pelo meu rosto.")

André Gonçalves, in: Coisas de Amor Largadas na Noite. Ed. Ideias Inc.

sábado, 14 de agosto de 2010

Classificado

Amanda Cass

Vendo urgente dor semi-nova, com pouco uso, leve arranhão na borda superior esquerda causado por um sorriso irresponsavelmente atirado pela janela. Aceito troca por alegria mesmo que com defeito ou melancolia regada a coca-cola. Não aceito esperança porque, mesmo sendo a última, acaba morrendo. Tratar com o proprietário.

André Gonçalves, in: Coisas de Amor Largadas na Noite. Ed. Ideias Inc.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Edifício

Alone Gut
Recolhe os cacos
dessa paixão cheia de cor
E antes que desbote
Faz um alicerce forte
Ergue uma parede que suporte
Todo o peso da sua dor.

André Gonçalves, in: Coisas de Amor Largadas na Noite. Ed. Ideias Inc.

sábado, 7 de agosto de 2010

alívio . . .

Alone Gut

Lembro apenas que chovia. E que, quando abri os olhos, você escorria de mim e aumentava a poça sob meus pés. E que estava frio. E que alguém ouvia Lizt. E que, engraçado, eu chorava de fora para dentro. Isso foi ontem. Ontem foi há muito tempo. Hoje já é amanhã. Não chove mais. Nem fora nem dentro. E o silêncio faz um barulhinho bom danado dentro de mim.

André Gonçalves, in: Coisas de Amor Largadas na Noite. Ed. Ideias Inc.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Bum!

Nonnetta
Era um amor que começou pequenininho.
Depois foi crescendo, crescendo, crescendo...
Acabou que ficou um amor tão grande, tão grande, mas tão
grande que explodiu. E eles ficaram ali, olhando um para o
outro, com os restos do amor no chão. E cada um foi para
um lado, soprando os pedacinhos que sobraram para ver se
nascia, pelo menos, um amorzinho novo.

André Gonçalves, in: Coisas de Amor Largadas na Noite. Ed. Ideias Inc.

Pé:

Vânia Medeiros
1. pneu de gente; 2. indivíduo que, quando está de pé, está deitado, e quando está deitado, está de pé; 3. veículo locomotor movido a sonhos; 4. órgão externo do aparelho dançomotor ; 5. fábrica de chulé; 6. Alphaville do bicho de pé; 7. se torto, candidato a lateral esquerdo da Seleção Brasileira de futebol; 8. se “na bunda”, sinônimo de adeus; 9. se “de valsa”, antônimo de timidez; 10. se “de moleque”, festa no céu da boca; 11. se “de pano”, tema de música de Frankito Lopes; 12. triturador de uvas; 13. motivo da existência das botinhas ortopédicas; 14. o viagra do podólatra; 15. se “de galinha”, sinônimo de pânico; 16. se “de mesa”, sonho masculino; 17. se “direito”, medida da altura da tranquilidade; 18. se “de serra”, festa a noite inteira; 19. indivíduo que, se sem par, vive pulando; 20. se gelado, lazarento; 21. termômetro para piscinas; 22. motivo de pavor nos formigueiros; 23. melhor amigo da massagem; 24. se "de meia", futuro em maços; 25. parte do ser amado mais procurada em noites frias. (Ex.: “Coloca aqui teus pés juntinho aos meus, amor, que dentro de mim está ventando e sinto muito, muito frio".)

André Gonçalves, in: Coisas de Amor Largadas na Noite. Ed. Ideias Inc.