Mostrando postagens com marcador Paulo Henriques Britto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Paulo Henriques Britto. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Duas bagatelas

foto: Daisy Serena
I

O que conheço de mim
é quase só o que sei,
e o que sei é quase só
o que não quero saber.
Resta saber se isso tudo
é só o começo ou se é o fim
ou – o que é pior que tudo –
se é tudo

II

Então viver é isso,
é essa obrigação de ser feliz
a todo custo, mesmo que doa,
de amar alguma coisa, qualquer coisa,
uma causa, um corpo, o papel
em que se escreve,
a mão, a caneta até,
amar até a negação de amar,
mesmo que doa,
então viver é só
esse compromisso com a coisa,
esse contrato, esse cálculo
exato e preciso, esse vício,
só isso.

Paulo Henriques Britto, in: Mínima Lírica. Ed. Companhia das Letras

sábado, 13 de abril de 2013

Matinal

Laura B. Fernández
Nesta manhã de sábado e de sol
em que o real das coisas se revela
na forma nada transcendente
de uma paisagem na janela

num momento captado em pleno vôo
pela discreta plenitude
de não ser mais que um par de olhos
parado no meio do mundo

tantas coisas se fazem conceber
fora do tempo e do espaço
até que o instante se dissolva
enfim em mil e um pedaços

feito esses furos de pregos
numa parede vazia
a insinuar uma constelação
isenta de qualquer mitologia.

Paulo Henriques Britto, in: Tarde. Ed. Companhia das Letras