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domingo, 3 de agosto de 2014

Canção de despedida

Standing Lovers, by Nick and Sheila Pye
Não ri e não cantei:
fiquei o dia inteiro calada.
Mais do que tudo queria estar contigo
de novo, desde o começo.
Irrefletida primeira briga,
absoluto e claro delírio;
silenciosa, insensível, rápida,
nossa última refeição.

1959

 Anna Akhmátova, in: Antologia Poética / Tradução de Lauro Machado Coelho. Ed. L&PM

quarta-feira, 9 de julho de 2014

A verdadeira ternura...

Menschen am Sonntag, 1930
A verdadeira ternura não se confunde
com coisa alguma. É silenciosa.
Em vão envolves com cuidado
os meus ombros e meu colo nesta estola.
Em vão palavras carinhosas
dizes sobre o nosso primeiro amor.
Como conheço bem esses insistentes
e insatisfeitos olhares teus.

Dezembro de 1913
Tsárskoei Seló.


Anna Akhmátova, in: Antologia Poética / Tradução de Lauro Machado Coelho. Ed. L&PM

terça-feira, 8 de julho de 2014

10

Yelena Yemchuk
São muitas, seguramente, as coisas
que ainda querem ser cantadas por mim:
tudo o que mudo ressoa,
o que no escuro subterrâneo afia a pedra,
o que irrompe através da fumaça.
Ainda não ajustei contas com a chama,
nem com o vento e nem com a água...
É por isso que a minha sonolência
abre-me, de par em par, os portões
que levam à estrela da manhã.

1942
Tashként

Anna Akhmátova, in: Antologia Poética / Tradução de Lauro Machado Coelho. Ed. L&PM

No umbral da primavera são assim certos dias:

Edward Steichen, The Blue Sky, 1923 

Para N.G. Tchúlkova
No umbral da primavera são assim certos dias:
sob os montes de neve repousa a pradaria,
as árvores sussurram desnudas mas alegres
ao sopro de um vento carinhoso e elástico.
E o corpo espanta-se ao sentir-se leve
e já não reconhece a própria casa
e nem ao canto, de que já se cansara,
e uma vez mais o canta, comovido, como se fosse novo.

Primavera de 1915.
Sliepniôvo.

Anna Akhmátova, in: Antologia Poética / Tradução de Lauro Machado Coelho. Ed. L&PM