Madruga-se porque madruga-se. Porque o resto da manhã já não serve ao sono, mas ao próprio amanhecer. Porque vale pensar em abandonos necessários, urgentes, porque é necessário abandonar-se ao tempo e sentir. Senti-lo. Não que seja fácil. É importante que se tenha um colo no qual se aconchegar e dinheiro na caixinha. Tudo por segurança. Mas há quem abandone no risco mesmo. Só pela força do amanhecer. Só pelo brilho do vazio que se interpõe entre a vontade e a coragem, e pela possibilidade de invadir esse vazio e se preencher de desconhecidos. Madruga-se porque a madrugada pede. Não mais que isso. Porque o resto do dia é alvoroçado demais para fazer poesia e porque o rastro do último sonho parece coisa palpável ainda aos primeiros raios de sol. Madruga-se porque sonha-se. Porque pede-se. Madrugo porque é hoje, e hoje me dá uma vontade...Carla Jaia


