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segunda-feira, 19 de julho de 2010

Madrugar-se

Madruga-se porque madruga-se. Porque o resto da manhã já não serve ao sono, mas ao próprio amanhecer. Porque vale pensar em abandonos necessários, urgentes, porque é necessário abandonar-se ao tempo e sentir. Senti-lo. Não que seja fácil. É importante que se tenha um colo no qual se aconchegar e dinheiro na caixinha. Tudo por segurança. Mas há quem abandone no risco mesmo. Só pela força do amanhecer. Só pelo brilho do vazio que se interpõe entre a vontade e a coragem, e pela possibilidade de invadir esse vazio e se preencher de desconhecidos. Madruga-se porque a madrugada pede. Não mais que isso. Porque o resto do dia é alvoroçado demais para fazer poesia e porque o rastro do último sonho parece coisa palpável ainda aos primeiros raios de sol. Madruga-se porque sonha-se. Porque pede-se. Madrugo porque é hoje, e hoje me dá uma vontade...

Carla Jaia

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Sossego da palavra

Quando a palavra me pediu um pouco de sossego, nada mais me restou senão olhar. E eu não soube ver. Não soube ver a coisa muda em sua andança errante. Porque, sem nome, a forma perde a forma. E toda a terra se fazia morte. Era o apocalipse vindo a cavalo e o mundo inteiro em galope múltiplo; era uma melodia relinchando feia e todos nós em notas de piano mudo. Tudo oco. E eu, calada tonta em vertigem bêbada.

Sem poder cantar minha vontade humana.

Fraca no que em mim é gente. Forte feito um animal. Suplicando que você me desse um soro. Pra me curar dessa doença-bicho...

Carla Jaia

Cópia de ninguém

Katarina Sokolova
Ela me falou do tal amor sem toque. Desde então, meu mundo se revirou por inteiro. É que corpo é corpo e vida é o que corre nas minhas veias, é músculo, pele e respiração na nuca. Amor sem toque não existe. Amor de olhos, fantasia, idéias e vôos? Ora, eu disse a ela que isso é amor de freira, e que amor de mulher – mulher mesmo! – precisa mesmo é de um bom calor de baixo pra cima, de cima pra baixo, de cá pra lá, de lá pra cá. E ela riu. Riu e continuou amando, na sutileza de seu olhar – tão feminino quanto o meu, dourado feito borboleta. Persistiu no desejo, na ânsia, seguiu intensa feito a amante do pianista de bordel. O bordel, sabe? Aquele que ela inventou em um de seus vôos. Voou para o pecado e encontrou mais um pedaço de sua santidade. Era úmida e quieta, era tão mulher que gozava ao sonhar. De ventre e imaginação; invisível de corpo, plena de visão. Via sem ser vista, amava sozinha, era fêmea em segredo. Assim são os que ainda não foram traçados como iguais pelo desenho repetido do nosso olhar mundano. Eu sou cópia de quase todo mundo. Ela era ainda cópia de ninguém.

Carla Jaia

domingo, 16 de maio de 2010

Intimista

Akif Celebi
Porque o caminho da tarde é sereno: desliza úmido. E afoga meus valores, meus preceitos, minhas vontades: a tarde se torna viva para o nada e para o nada ela dança, dança feito bailarina em chamas. Não penso mais. Não hoje… Hoje eu deixo que ela tome minha mão – amante querida – e me leve aos escorregões do desejo que se impõe. Que me convida e me derruba. Como se fosse desejo de. Mas não é. É mais fluido que isso. É mais forte que isso. É abertamente delicado no íntimo das coisas que respiram. A tarde respira quente, sopra seu inferno aqui. Aqui, ali, onde for: a tarde tem nome feminino mas não tem gênero. É ele e ela: é nós. A tarde tem um nome que desata os nós, porque seu nome rasga. Nome que se assemelha ao meu por causa da letra R que perfura a coisa inteira. Desintegra. Desfaz. Faz tudo em poros atravessáveis. Hoje, da tarde de que sou feita, sou atravessada por inverdades múltiplas que vem contar seus planos. Então, agulha fina me tece novamente. Porque aos poucos a noite chega. Exigente. Também tem nome feminino. Também é líquida. Mas vem para silenciar, toda intimista. A noite – tantos temem! Mas é muito, muito mais gentil. É linha reta que estanca a ansiedade.

Carla Jaia