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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Madrugada

Do fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite

a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes

Ferreira Gullar, in: Dentro da Noite Veloz / abril 1971

domingo, 6 de novembro de 2011

definições :

CHÃO
fala fósseis sol
facho
farpa fogo
arco-sombra
faca jardim archote
folha ou boca
flama
gasto em vão

Ferreira Gullar, in: Dentro da Noite Veloz / O Vil Metal 1954 - 1960

mar azul

mar azul marco azul
mar azul marco azul barco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul ar azul

Ferreira Gullar, in: Dentro da Noite Veloz / O Vil Metal 1954 - 1960

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Pela rua

Sem qualquer esperança
detenho-me diante de uma vitrina de bolsas
na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, domingo,
enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro.

Sem qualquer esperança
te espero
Na multidão que vai e vem
entra e sai dos bares e cinemas
surge teu rosto e some
num vislumbre
e o coração dispara
Te vejo no restaurante
na fila do cinema, de azul
diriges um automóvel, a pé
cruzas a rua
miragem
que finalmente se desintegra com a tarde acima dos
edifícios
e se esvai nas nuvens

A cidade é grande
tem quatro milhões de habitantes e tu és uma só.
Em algum lugar estás a esta hora, parada ou andando,
talvez na rua ao lado, talvez na praia
talvez converses num bar distante
ou no terraço desse edifício em frente,
talvez estejas vindo ao meu encontro, sem o saberes,
misturada às pessoas que vejo ao longo da Avenida.
Mas que esperança! Tenho
uma chance em quatro milhões.
Ah, se ao menos fosses mil
disseminada pela cidade.

A noite se ergue comercial
nas constelações da avenida.
Sem qualquer esperança
continuo
e meu coração vai repetindo teu nome
abafado pelo barulho dos motores
solto ao fumo da gasolina queimada.

Ferreira Gullar, in: Dentro da Noite Veloz / 1966

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O sopro,

Alaya Gadeh
a turva mão na flor

Fico ouvindo meu corpo dizer seu nome
- dos fornos do osso, a primavera vem
mas já saudosa regressa
aos seus metais de origem.

Ferreira Gullar, in: Dentro da Noite Veloz / O Vil Metal 1954 - 1960

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
está fechado:
"não há vagas"

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

Ferreira Gullar, in: Dentro da Noite Veloz / 25.5.63

domingo, 16 de outubro de 2011

mas a lembrança
de uma
cor
encardida
um caco
de cerâmica no
quintal
a lembrança do
perfume
na horta
o metal
do hortelã

são
uma rara
alegria.

Ferreira Gullar

sábado, 6 de agosto de 2011

Mau despertar

Saio do sono como
de uma batalha
travada em
lugar algum

Não sei na madrugada
se estou ferido
se o corpo
tenho
riscado
de hematomas

Zonzo lavo
na pia
os olhos donde
ainda escorre
uns restos de treva.

Ferreira Gullar - Agosto de 1997

terça-feira, 14 de junho de 2011

bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome era nome era...
Perdeu-se na carne fria
perdeu-se na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
pastilhas de aniversário
domingos de futebol
enterros corsos comícios
roleta bilhar baralho.
[...]

Ferreira Gullar, in: Fragmento de Poema Sujo / Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século. Org. Italo Moriconi. Ed. Objetiva

terça-feira, 5 de abril de 2011

"Poeta, palhaço, pirata, corisco, errante judeu ..."

Tarsila do Amaral

[...] O artista cria um mundo outro - mas bonito ou mais intenso ou mais significativo ou mais ordenado - por cima da realidade imediata. Naturalmente, esse mundo outro que o artista cria ou inventa nasce de sua cultura, de sua experiência de vida, das ideias que ele tem na cabeça, enfim, de sua visão do mundo.

Ferreira Gullar

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti.

Ferreira Gullar, in: Fragmento de Poema Sujo / Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século. Org. Italo Moriconi. Ed. Objetiva
Estamira
Ah, minha cidade suja
de muita dor em voz baixa

de vergonhas que a família abafa
em suas gavetas mais fundas
de vestidos desbotados
de camisas mal cerzidas
de tanta gente humilhada
comendo pouco

mas ainda assim bordando flores
suas toalhas de mesa
suas toalhas de centro

de mesa com jarros
- na tarde
durante a tarde
durante a vida -
cheio de flores
de papel crepom
já empoeiradas

minha cidade doída.

Ferreira Gullar, in: Fragmento de Poema Sujo / Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século. Org. Italo Moriconi. Ed. Objetiva

sábado, 22 de maio de 2010

Aprendizado

Sundari Carmody
Do mesmo modo de que abriste à alegria
abra-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e que perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

Ferreira Gullar, in: Poesia & Vida: anos 70. Ed. UFJF

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Homem comum

Sou um homem comum
de carne e de memória
de osso e esquecimento.
e a vida sopra dentro de mim
pânica
feito a chama de um maçarico
e pode
subitamente
cessar.

Sou como você
feito de coisas lembradas
e esquecidas
rostos e
mãos, o quarda-sol vermelho ao meio-dia
em Pastos-Bons
defuntas alegrias flores passarinhos
facho de tarde luminosa
nomes que já nem sei
bandejas bandeiras bananeiras
tudo
misturado
essa lenha perfumada
que se acende
e me faz caminhar
Sou um homem comum
brasileiro, maior, casado, reservista,
e não vejo na vida, amigo,
nenhum sentido, senão
lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino.
Mas a poesia é rara e não comove
nem move o pau-de-arara.
Quero, por isso, falar com você,
de homem para homem,
apoiar-me em você
oferecer-lhe o meu braço
que o tempo é pouco
e o latifúndio está aí, matando.

Que o tempo é pouco
e aí estão o Chase Bank,
a IT & T, a Bond and Share,
a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
e sabe-se lá quantos outros
braços do polvo a nos sugar a vida
e a bolsa
Homem comum, igual
a você,
cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
A sombra do latifúndio
mancha a paisagem
turva as águas do mar
e a infância nos volta
à boca, amarga,
suja de lama e de fome.

Mas somos muitos milhões de homens
comuns
e podemos formar uma muralha
com nossos corpos de sonho e margaridas.

Ferreira Gullar, in: Dentro da Noite Veloz / Brasília, 1963. Ed. Civilização Brasileira

quarta-feira, 4 de novembro de 2009


[...] mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta [...].

Ferreira Gullar, in: Fragmento de Poema Sujo / Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século. Org. Italo Moriconi. Ed. Objetiva