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sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

COMO CORTAR RELAÇÕES

C Blok


Às vezes tesoura cega basta
noutros casos é preciso usar os dentes
o fio de uma peixeira a minúcia
de um canivete suíço
às vezes a substância é tão frágil que
com a ideia de um corte se desmancha
noutros casos há que cortar os mares
e ainda assim teima o corte (ilha) em cicatrizar
   às vezes
é como cortar dois pedaços
de linha cortar as despesas
cortar caminho
cortar o pão
mas às vezes é como abrir um talho
no próprio corpo e a cura do corte
é um corte sem cura
           - nesses casos
vá em frente          tente
corte o mal pela raiz
e verá que a raiz revive
descrente da autoridade
da sua lâmina cega
da sua inepta pá de cal.

Adriana Lisboa, in: Deriva. Ed. Relicário

terça-feira, 6 de março de 2012

a-m-o-r

[...] O amor, se existe, não é uma entidade. O amor é um milhão de pequenas coisas. Não é possível ter uma ideia genérica do que seja o amor ou procurar dicionalizá-lo. O amor é uma flor murcha, um marcador amarelo de textos, um disquete de computador, uma chave de fenda, um quadro de avisos onde se espeta um bilhete, um peso de papel azul que reproduz o globo terrestre, uma cama desfeita ao meio-dia e um copo d'água pela metade, folhas secas que o vento varreu para dentro de casa, um vulto sombrio nos olhos por causa de uma discussão com alguém, a pequena escultura mexicana de um pássaro, guardanapos de papel sobre a mesa-de-cabeceira, alguém que martela um prego em outro apartamento, uma lista telefônica aberta, mais nada.

Adriana Lisboa, in: Um beijo de Colombina. Ed. Rocco

domingo, 7 de agosto de 2011

Geografia

Na chapada tudo é grande. O céu só termina quando o seu olhar desiste, ou quando a miopia te vence. Caminhe o dia inteiro e confira no mapa: você só cobriu o espaço que basta ao seu cansaço. A chapada desafia os músculos, a garrafa d'água, a máquina fotográfica. O ar é demais e dói, ressecando seu fôlego neste junho marrom. Mas água do rio Preto é preta e transparente e seus pés não encontram fundo para o medo do mergulho. Sua voz não encontra timbre para o grito. Ao sublime inquieto do céu, seu pensamento é supérfluo. Mesmo sua vida é supérflua.

O céu do cerrado desdenha das testemunhas e o sol se põe, metamorfose, catarse azul e amarela nas araras-canindé. Alguém disse que as montanhas aqui são para dentro. Você caiu na barriga do mundo, onde se desfaz tão rapidamente quanto qualquer alimento. A pele queima, a noite é fria, e as estrelas pulsam toda a galáxia insone enquanto você morre mais uma vez.

Na chapada tudo é pequeno. Em meio metro de rio os peixes beliscam seus pés e as bolhas dentro d'água duram um segundo. A correnteza espelha trezentos minúsculos sóis. Trezentos milhões. Cor-de-rosa pela manhã, ao meio-dia as mimosas já são brancas. A poeira tem asas e agarra seu cabelo e nenhum branco das suas roupas dura mais do que cinco minutos. Mínimos vales lunares feitos de pedra e areia cabem entre dois passos. Na chapada você tem o tamanho dos seus olhos e da sua irrisória capacidade de assombro. Na chapada aquilo que te assombra é também o milagroso espaço de uma flor. De um inseto. Do animal que é só pegada e vestígio. No dolorido músculo da perna você encontra sua alma, que palpita, que inverte o cerco, que nasce mais uma vez.

Adriana Lisboa, in: Caligrafias. Ed. Rocco

terça-feira, 3 de maio de 2011

Tomás lembrava-se dela. O amor. Onde estaria?

Rui Soares
O amor era como a marca pálida deixada por um quadro removido após anos de vida sobre uma mesma parede. O amor produzira um vago intervalo em seu espírito, na transparência dos seus olhos, na pintura envelhecida da sua existência. Um dia, o amor gritara dentro dele, inflamara suas vísceras. Não mais. Mesmo a memória era incerta, fragmentada, pedaços do esqueleto de um monstro pré-histórico enterrados e conservados pelo acaso, impossível recompor um todo íntegro. Trinta anos depois. Duzentos milhões de anos depois [...].

Adriana Lisboa, in: Sinfonia em Branco. Ed. Rocco

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Jazz

Vânia Medeiros
Ela tira os óculos e guarda uma mecha de cabelo atrás da orelha. Faz frio no estúdio. Pensa vagamente no sonho que teve à noite enquanto canta my toes just touched the water.
A melodia desliza pela sala e ele tem plena consciência de que perdeu o controle do tempo. A música de Norah Jones vai terminar, a noite vai terminar, na hora de dormir ele vai apagar o lustre e conseqüentemente seu reflexo no espelho vai morrer também.

O pai dela escuta música na sala (Norah Jones de novo, meu deus) e parece que não quer conversa. Ela pega uma bala na gaveta e volta para o quarto. Ao passar pelo corredor vê, no teto, uma lagartixa.

Suas pequeninas patas esverdeadas, quase translúcidas, grudam-se ao teto enquanto ela espreita um mosquito. Mas o inseto é mais rápido e sai voando pela janela aberta.

Lá fora, sob suas asas, a noite é translúcida, esverdeada, fria e doce. Parece uma melodia de jazz.

Adriana Lisboa, in: Caligrafias. Ed. Rocco