sábado, 23 de julho de 2011

Recomeço

Não é preciso agendar, entrar em fila, contar com a sorte, acordar cedo para pegar senha: a possibilidade de recomeço está disponível o tempo todo, na maior parte dos casos. Não tem mistério, ela vem embrulhada com o papel bonito de cada instante novo, essa página em branco que olha pra gente sem ter a mínima ideia do que escolheremos escrever nas suas linhas.

O que é preciso mesmo é ter coragem para abrir o presente.

Ana Jácomo

esperas . . .


enquanto:


uma ponte feita de tempo
que leva a espera ao encontro.

Ana Jácomo

versos de circunstância

Alaya Gadeh
dei de amanhecer com as mãos
repletas de espinhos
floridos

e os olhos ardidos de auroras
vazios de palavras
vazias.

Márcia Maia

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Ela não consegue definir muito bem o seu sentimento,

não sente ódio, nem repugnância, então talvez se trate de desejo. Não sabe de nada. Consentiu em ir ao apartamento na noite anterior. Está onde precisa estar. [...] Ele está trêmulo. Olha para ela como se esperasse ouvi-la dizer alguma coisa, mas a moça não fala. Então ele também fica imóvel, não a despe, diz que a ama como louco, depois fica calado. Ela não responde. Poderia dizer que o ama. Não diz nada. Subitamente, compreende, num momento, que ele não a conhece, que não a conhecerá jamais. Mesmo com tantos subterfúgios para compreendê-la, jamais conseguirá. A ela compete saber. Ela sabe. [...] Ele diz que está sozinho, terrivelmente sozinho com esse amor. Ela responde que também está sozinha. Não diz com o quê. [...] E chorando realiza o ato. A princípio, a dor. E depois a dor se transforma, é arrancada lentamente, transportada para o prazer, abraçada pelo prazer.

Marguerite Duras, in: O Amante. Ed. Nova Fronteira

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Encantado silêncio

Entre estrelas
entre algas
entre brancos lençóis
e paredes brancas.
Vermelha viagem da vida nas veias.
Instante que precede ao nascimento,
também à morte.
A morte é um silêncio suspenso.
... E o sol, um silêncio vermelho.
Nuvens em seu passeio,
diante da janela deste apartamento.
Tem uma sinfonia em tons vários,
que gritam — silêncio!
Silencio. Branca, como estrelas e algas.
Passeio brancas areias de Maputo,
olhando ao redor em busca de Mia Couto...
Ansiando que ele me ensine a estrondar
o encanto.

Bárbara Lia
Margem do rio São Francisco
Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens.

João Guimarães Rosa

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Lilya Corneli
[...] Incrível como a gente não muda, por mais que mude de lugar. O aqui dentro não muda nem um pouco só porque o lá fora muda.
Coisas de casca e semente, de substância e superfície.

Lá longe ou aqui perto, tudo continua igual, sempre igual, no fundo. E quando nos deslocamos ao passado na lembrança pra trazer suas horas decisivas ao presente é que isso fica ainda mais claro, mais claro do que nunca, e tudo parece estar acontecendo aqui e agora, mais uma vez.

Marcelo Backes, in: Três Traidores e Uns Outros. Ed. Record

terça-feira, 19 de julho de 2011

Pingos nos ii


Tão econômica quanto ele. Escreveu-lhe nas entrelinhas e ele leu-a em meias palavras. Bastaram-se.

Tânia Diniz

rabisco

o amor que tenho
é só um desenho
esboço mal feito
de uma paixão
recolhida.

Líria Porto

miragem

Lilya Corneli
não hás de ter-te em mim
mais que o deserto
areias brancas longuíssimas
plenas em vento
faltas em mar

(e eu que sou de mar?)

: ardentes belas silencio
sas e irreais.

Márcia Maia