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terça-feira, 18 de junho de 2013

Não posso dizê-lo de outro modo

virá um dia um dia virá um dia
haverá um dia
uma manhã
e teremos o que fomos somos
houve um dia
um delfim
um escabelo um pâmpano no ar
não posso dizê-lo de outro modo

quando me ponho a conversar sobre estas coisas
minha intenção é ser muito claro e muito direto
não posso dizê-lo de outro modo
virá um dia um dia virá um dia
uma manhã
e tudo será muito claro e muito desperto

Edgar Bayley, in: El día, 1968. Tradução de Renato Rezende. In: Puentes. Poesía argentina y brasileña contemporánea. Ed. Fondo de Cultura Económica. Antología bilingue. 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Fidelidade na encruzilhada

Angela Petsis
No sol alto, sem ostentação nem impaciência, se prolonga o teu caminho. Serenidade do que é ignorado: uma emersão futura te salvará em qualquer homem.

Esse relâmpago que torna a fraternidade possível, tanto na renúncia como na inocência e na esperança, é uma das propriedades da poesia. Mas nada autoriza o poeta a dar-lhe um nome definitivo e menos ainda a converter-se no profissional de sua dicção ou do seu descobrimento.

Usura do alucinado. Indubitavelmente, este mundo é teu. Mas só existe do teu despredimento. O poeta, testemunha da sua própria existência, coexiste com o mundo.

Todo poeta sabe que a palavra não é instrumento. É vida com os demais. Bem comum. Solidão comum. A declamação e a ortopedia do espírito ficam às margens. Impossibilidade, portanto, do poema fabricado ter acesso à terra dos homens, de alimentar sua viagem.

Afazeres da poesia: tornar toda justificação desnecessária.

Tudo ajuda, menos a retórica da pureza e a ordem dos eleitos. É preciso intercambiar na intempérie nossos sinais de reconhecimento com as coisas e com nossos irmãos.

Arriscar a incongruência para conhecer tua realidade, a realidade dos outros. Nada mais contrário ao teu próprio fluir do que a adoção de certezas de superfície.

Fatalidade das aparências. No meio do caminho, entre a concessão e o protesto, exposto a todos os excessos da ingenuidade e do cálculo, este amigo verdadeiro, este amante fiel, este lúcido conhecedor, é frequentemente confundido com seus inimigos: o narciso, o bêbado e o inconsequente.

Inevitabilidade de uma voz, de um homem real na encruzilhada, sem desprezo nem excessiva consideração pelas margens. A incandescência da palavra – seu maior logro – é função dos gestos silenciosos, frequentemente ignorados, do nadador sobrevivente e fraternal. Poesia – modo de nadar, de estar presente, alheia às retribuições do espetáculo –. Poesia irmã na solidão e no esquecimento. Poesia – viril esperança entre os homens.

Edgar Bayley, in: Ni Razón ni Palabra. Tradução de Renato Rezende. In: Puentes. Poesía argentina y brasileña contemporánea. Ed. Fondo de Cultura Económica. Antología bilingue. 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O dia

um diz não é hora não é hora ainda
escurece o dia foge sobre as árvores
foge voa solitário sobre o aterro
sobre o porto
sobre os braços estendidos
um diz não é hora
o caminho se interrompe volta
foge muito alto para cima
o dia
que direi? que direi?
amigos de ontem de hoje
os caminhos voltam
mas atrás irá o sal dos coros

Edgar Bayley, in: El Día, 1968. Tradução de Renato Rezende. In: Puentes. Poesía argentina y brasileña contemporánea. Ed. Fondo de Cultura Económica. Antología bilingue.