sábado, 12 de novembro de 2016

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um enorme rabo de baleia
cruzaria a sala nesse momento
sem barulho algum o bicho
afundaria nas tábuas corridas
e sumiria sem que percebêssemos
no sofá a falta de assunto
o que eu queria mas não te conto
é abraçar a baleia mergulhar com ela
sinto um tédio pavoroso desses dias
de água parada acumulando mosquito
apesar da agitação dos dias
da exaustão dos dias
o corpo que chega exausto em casa
com a mão esticada em busca
de um copo d’água
a urgência de seguir para uma terça
ou quarta boia, e a vontade
é de abraçar um enorme
rabo de baleia seguir com ela

Alice Sant'Anna, in: Rabo de Baleia, ed. Cosac Naify

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

CARTOGRAFIAS














Viajo olhando pela janela do ônibus
em busca das linhas vermelhas das fronteiras
ou dos nomes luminosos das cidades
pairando sobre elas
como nos mapas
neles não ventava nem chovia
e nunca era noite
e eu passava horas estudando
todos os caminhos que me levariam até você
mas nos mapas eu nunca te encontrava
chego em duas ou três horas
o coração no peito como um pão
ainda quente na mochila
talvez você me espere na rodoviária
talvez eu te veja ainda antes de descer do ônibus
assim que descer vou entregar nas suas mãos
emboladas num novelo
as linhas desfeitas das fronteiras e
como as contas luminosas de um colar
cada um dos nomes das cidades

Ana Martins Marques, in: O livro das semelhanças, ed. Companhia das Letras

terça-feira, 1 de novembro de 2016

i.



















nasci assustada
e nunca passa
coração barulhento
pregando peça

na batida de troca-guarda
ventrículo átrio átrio ventrículo
queimou atrito
coração atalho

um cateter dentro
incendiando acessos
vias elétricas
em passagens erradas
queimaram quimeras
ficaram nas cordas
angústias
taquicardias

meu coração
desde cedo atrapalho
coração que atalha
de uma surpresa a outra

gosto de rotinas
meu coração
detesta

gosto de rotinas
meu coração
em festa

Natalia Borges Polesso, in: Coração à corda, ed. Patuá

domingo, 2 de outubro de 2016

Páscoa

Zsuzsa Darab

Velhice
é um modo de sentir frio que me assalta
e uma certa acidez.
O modo de um cachorro enrodilhar-se
quando a casa se apaga e as pessoas se deitam.
Divido o dia em três partes:
a primeira pra olhar retratos,
a segunda pra olhar espelhos,
a última e maior delas, pra chorar.
Eu, que fui loura e lírica,
não estou pictural.
Peço a Deus,
em socorro da minha fraqueza,
abrevie esses dias e me conceda um rosto
de velha mãe cansada, de avó boa,
não me importo. Aspiro mesmo
com impaciência e dor.
Porque sempre há quem diga
no meio da minha alegria:
'põe o agasalho'
'tens coragem?'
'por que não vais de óculos?'
Mesmo rosa sequíssima e seu perfume de pó,
quero o que desse modo é doce,
o que de mim diga: assim é.
Pra eu parar de temer e posar pra um retrato,
ganhar uma poesia em pergaminho.

Adélia Prado, in: Reunião de poesia. Ed. Bestbolso

terça-feira, 21 de junho de 2016

Poema

Floris Neususs, 1971.
Saber de cor o silêncio
diamante e/ou espelho
o silêncio além
do branco.

Saber seu peso
seu signo
— habitar sua estrela
impiedosa

Saber seu centro: vazio
esplendor além
da vida
e vida além
da memória.

Saber de cor o silêncio

— e profaná-lo, dissolvê-lo
em palavras

Orides Fontela, in: Alba (1983) / Poesia Reunida. Ed. Cosac Naify

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Duas bagatelas

foto: Daisy Serena
I

O que conheço de mim
é quase só o que sei,
e o que sei é quase só
o que não quero saber.
Resta saber se isso tudo
é só o começo ou se é o fim
ou – o que é pior que tudo –
se é tudo

II

Então viver é isso,
é essa obrigação de ser feliz
a todo custo, mesmo que doa,
de amar alguma coisa, qualquer coisa,
uma causa, um corpo, o papel
em que se escreve,
a mão, a caneta até,
amar até a negação de amar,
mesmo que doa,
então viver é só
esse compromisso com a coisa,
esse contrato, esse cálculo
exato e preciso, esse vício,
só isso.

Paulo Henriques Britto, in: Mínima Lírica. Ed. Companhia das Letras

terça-feira, 26 de abril de 2016

IX

via Tumblr
Eu posso confundir os ruídos da rua em frente. Os limites da rua são semelhantes aos desenhos que teu rosto trai. Me parece vago me vestir da tuas palavras, ou te vestir das minhas. Me parece vago eu e tu. Porque estou ardendo pelas terceiras pessoas na multidão e no exagero. Como as salientes visões que a custo separo do meu hálito — ou o personagem vazio que é todas as ausências de personagens. Por mais que sejam visíveis com as primeiras nuvens, esquecem a paz de serem apenas dois signos idênticos e sobem ruínas estreitas, presas abandonadas há muitos anos, restos de temporadas humanas, o súbito vácuo. Precisa se deter sobre largos muros, trincar os dentes numa carne despedaçada. Precisa fingir que passeia por uma praia ao sul de tudo, precisa fingir que se move lepidamente em minhas areias. Teu movimento uniforme para um único ponto no ar. Frente à tua tardia se retraem como num barco como numa lembrança absoluta de fome. Para te exigir tudo, para te rasgar em partes separadas. Para te trucidar as letras, o reverso do que és, tuas direções. Me escapa o poder de redenominá-las pequenas companhias, dois esquecimentos de um destino de ser real, talvez um lapso apenas meu ou teu. Somos e sois apenas figuras, irrecuperavelmente deslocadas de um lugar primordial. Faz menos distância impossível.  Tuas visitas de popa a proa,  imprevisíveis e frequentes como as chegadas a um cais — a um velho cais desprotegido, as amarras rangendo entre as águas e âncoras repousando. Vens entre as tábuas de bordo e a marca do sextante, liquefeita. Me reconheço de parte com teus sonhos ou com este reino onde também teus sonhos principiam. Uma persistência unívoca me faz suster a composição agora mágica dos corpos. Neste cais nada mais me importa mas a partida dos veleiros. Há que guardar à beira das ondas e reouvir os ruídos da rua em frente, como que para apanhar entre os dedos a bobagem desta noite.

Ana Cristina Cesar, in: Poética. Ed. Companhia das Letras

domingo, 22 de novembro de 2015

TATO

Mãos tateiam
palavras
tecido
de formas.

Tato no escuro das palavras
mãos capturando o fato
texto e textura: afinal
matéria.

Orides Fontela, in: Transposição (1969) / Poesia Reunida. Ed. Cosac Naify

MÃOS

Berenice Abbott

Com as mãos nuas
lavrar o campo:

as mãos se ferindo
nos seres, arestas
da subjacente unidade

as mãos desenterrando
luzesfragmento
do anterior espelho

Com as mãos nuas
lavrar o campo:

desnudar a estrela essencial
sem ter piedade do sangue.

Orides Fontela, in: Transposição (1969) / Poesia Reunida. Ed. Cosac Naify