terça-feira, 21 de junho de 2016

Poema

Floris Neususs, 1971.
Saber de cor o silêncio
diamante e/ou espelho
o silêncio além
do branco.

Saber seu peso
seu signo
— habitar sua estrela
impiedosa

Saber seu centro: vazio
esplendor além
da vida
e vida além
da memória.

Saber de cor o silêncio

— e profaná-lo, dissolvê-lo
em palavras

Orides Fontela, in: Alba (1983) / Poesia Reunida. Ed. Cosac Naify

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Duas bagatelas

foto: Daisy Serena
I

O que conheço de mim
é quase só o que sei,
e o que sei é quase só
o que não quero saber.
Resta saber se isso tudo
é só o começo ou se é o fim
ou – o que é pior que tudo –
se é tudo

II

Então viver é isso,
é essa obrigação de ser feliz
a todo custo, mesmo que doa,
de amar alguma coisa, qualquer coisa,
uma causa, um corpo, o papel
em que se escreve,
a mão, a caneta até,
amar até a negação de amar,
mesmo que doa,
então viver é só
esse compromisso com a coisa,
esse contrato, esse cálculo
exato e preciso, esse vício,
só isso.

Paulo Henriques Britto, in: Mínima Lírica. Ed. Companhia das Letras

terça-feira, 26 de abril de 2016

IX

via Tumblr
Eu posso confundir os ruídos da rua em frente. Os limites da rua são semelhantes aos desenhos que teu rosto trai. Me parece vago me vestir da tuas palavras, ou te vestir das minhas. Me parece vago eu e tu. Porque estou ardendo pelas terceiras pessoas na multidão e no exagero. Como as salientes visões que a custo separo do meu hálito — ou o personagem vazio que é todas as ausências de personagens. Por mais que sejam visíveis com as primeiras nuvens, esquecem a paz de serem apenas dois signos idênticos e sobem ruínas estreitas, presas abandonadas há muitos anos, restos de temporadas humanas, o súbito vácuo. Precisa se deter sobre largos muros, trincar os dentes numa carne despedaçada. Precisa fingir que passeia por uma praia ao sul de tudo, precisa fingir que se move lepidamente em minhas areias. Teu movimento uniforme para um único ponto no ar. Frente à tua tardia se retraem como num barco como numa lembrança absoluta de fome. Para te exigir tudo, para te rasgar em partes separadas. Para te trucidar as letras, o reverso do que és, tuas direções. Me escapa o poder de redenominá-las pequenas companhias, dois esquecimentos de um destino de ser real, talvez um lapso apenas meu ou teu. Somos e sois apenas figuras, irrecuperavelmente deslocadas de um lugar primordial. Faz menos distância impossível.  Tuas visitas de popa a proa,  imprevisíveis e frequentes como as chegadas a um cais — a um velho cais desprotegido, as amarras rangendo entre as águas e âncoras repousando. Vens entre as tábuas de bordo e a marca do sextante, liquefeita. Me reconheço de parte com teus sonhos ou com este reino onde também teus sonhos principiam. Uma persistência unívoca me faz suster a composição agora mágica dos corpos. Neste cais nada mais me importa mas a partida dos veleiros. Há que guardar à beira das ondas e reouvir os ruídos da rua em frente, como que para apanhar entre os dedos a bobagem desta noite.

Ana Cristina Cesar, in: Poética. Ed. Companhia das Letras

domingo, 22 de novembro de 2015

TATO

Mãos tateiam
palavras
tecido
de formas.

Tato no escuro das palavras
mãos capturando o fato
texto e textura: afinal
matéria.

Orides Fontela, in: Transposição (1969) / Poesia Reunida. Ed. Cosac Naify