Mostrando postagens com marcador Marina Colasanti. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marina Colasanti. Mostrar todas as postagens

domingo, 14 de novembro de 2010

Amar,

então, é a capacidade de estar no lugar do outro, de saber como ele pensa, quais são os seus desejos. Só posso colocar em primeiro lugar as emoções do parceiro se sei quais elas são. Se amo sem conhecer, não estou amando outra pessoa, nem querendo satisfazer os seus desejos.

Estou querendo satisfazer os meus através dela, que uso como suporte das minhas fantasias. Amando, quero a transparência, quero ver através.

Mariana Colasanti, in: E Por Falar em Amor. Ed. Salamandra

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Alfred Gockel
[...] Um grande amor pode existir mesmo sem resposta; o amante suspira na sombra, se acaba de paixão, sem que o objeto de seus sonhos lhe dirija, mais do que um olhar. Mais na vida real o que queremos, para que o amor se complete física e afetivamente, é que o outro também nos ame. E achamos que nosso amor só se transformará realmente num amor absoluto, na medida em que a intensidade do amor do outro for gêmea idêntica da nossa intensidade.

O amor não é mensurável. A duras penas sabemos do nosso próprio amor, quanto mais do outro. O que costumamos fazer para resolver o impasse é medir o amor do outro usando o nosso próprio amor como metro. Ele diz "eu te amo". Nos respondemos "eu também te amo". E deduzimos que as duas coisas são idênticas e que aquele amor, como a vida e a morte, representa um todo, como elas indissolúvel, e, portanto, como elas, absoluto. Está demonstrando o teorema, como se queria.
Um perigoso teorema, na verdade. Porque em cima dele, e da sua inconsistência, começamos a construir justamente aquele castelo que queríamos mais sólido e mais seguro.
E a cada tilojo fazemos um investimento maior para que cresça rumo ao alto e, como a Torre de Babel, nos leve ao céu, nos permita a eternidade, justifique a vida e esconjure a morte.

Marina Colasanti, in: E Por Falar em Amor. Ed. Salamandra

domingo, 5 de outubro de 2008

A quem interessar possa

Abriu a janela no exato momento em que a garrafa com a mensagem passava, levada pelo vento. Pegou-a pelo gargalo e, sem tirar a rolha, examinou-a cuidadosamente. Não tinha endereço, não tinha remetente.
Certamente, pensou, não era para ele. Então, com toda delicadeza, devolveu-a ao vento.

Marina Colasanti, in: Contos de Amor Rasgados. Ed. Rocco

Quando já não era mais necessário

“Beije-me”, pedia ela no amor, quantas vezes aos prantos, a boca entreaberta, sentindo a língua inchar entre os dentes, de inútil desejo. E ele, por repulsa secreta sempre profundamente negada, abstinha-se de satisfazer seu pedido, roçando apenas vagamente os lábios no pescoço e rosto.

Nem se perdia em carícias, ou se ocupava de despir-lhe o corpo, logo penetrando, mais seguro no túnel das coxas do que no possível desabrigo da pálida pele possuída. Com os anos, ela deixou de pedir. Mas não tendo deixado de desejar, decidiu afinal abandoná-lo, e a casa, sem olhar para trás, não lhe fosse demais à visão de tanto sofrimento.

Mão na maçaneta, hesitou porém. Toda a sua vida passada parecia estar naquela sala, chamando-a para um último olhar. E, lentamente, voltou à cabeça.
Sem grito ou suspiro, a começar pelos cabelos, transformou-se numa estátua de sal.
Vendo-a tão inofensivamente imóvel, tão lisa, e pura, e branca, delicada como se translúcida, ele jogou-se pela primeira vez a seus pés. E com excitada devoção, começou a lambê-la.

Marina Colasanti, in: Contos de Amor Rasgados. Ed. Rocco

sábado, 4 de outubro de 2008

[...] Um amor se estabele a partir de satisfação que pode nos dar. Não a satisfação mais óbvia, social, ou até mesmo sexual, mas a satisfação daqueles desejos de que nem mesmo temos consciência, e que são o movente de nossas vidas.
Ás vezes, a nossa escolha lógica coincide com a escolha inconsciente. É quando nos sentimos equilibrados, saudáveis, maduros. Mas outras, tantas outras, escolhemos aquele que nos parece menos indicado, e ao qual, apesar de todas as nossas reservas, não conseguimos deixar de amar.

Então sofremos, nos descabelamos e gritamos ao quatro ventos que enlouquecemos, que um louco amor nos tirou a razão.
O amor não é louco. Sabe muito bem o que faz, e nunca, nunca age sem motivo, embora esse motivo possa permanecer obscuro para nós. Loucos somos nós, que insistimos em querer entendê-lo no plano da razão. Loucos e destemidos, que tendo que conviver com ele a vida inteira, aceitamos fazê-lo no escuro, pouco nos ocupando em manter o contato e o diálogo com a voz interna que o comanda.

Marina Colasanti, in: E Por Falar em Amor. Ed. Salamandra