
[...] Bem cedo vi que sou daqueles que sofrem muito mais com o sofrimento do que se alegram com as alegrias, e tentei criar mecanismos de controle. Sou um triste, no fundo.
Marcelo Backes, in: Três Traidores e Uns Outros. Ed. Record


O tempo não passa, o relógio ancestral diz que já são onze e meia com seu toque peculiar. As comichões pararam. Tenho medo de me mexer e fazer que elas voltem. Fixo o teto e sinto meus olhos se esbugalharem, vejo tudo duplo, e me afundo no cansaço sem sono do desespero. O que vai ser de mim?
[...] Eu chorei também, disse que tudo talvez fosse passageiro, que continuaríamos amigos, ajudando um ao outro, que ainda nos veríamos muitas vezes, que ainda daríamos muitas risadas juntos [...], enquanto lágrimas saltavam molhando meus óculos, fazendo garças voarem no pântano turvo que se formou diante de meus olhos.
Nessa vida tudo é sempre mais ou menos, e o mundo só tem jeito se conseguirmos rir da cara dele. Como não, se a chantagem dos outros ousa matar o que é mais genuíno dentro da gente? Se até quando mais amamos somos traídos? Se inclusive nos momentos de maior tormento, em que choramos de verdade, o mundo não titubeia em passar seu trator por cima de nós?