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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

amor


o amor não está aqui nem está alhures. o amor não tem algo a dizer. não pergunte nada ao amor. não o procure no fundo de nada; ele sempre está na superfície. principalmente não o procure. mas também não espere que se você não o procurar, vai encontrá-lo. não morra de amor. o amor não é uma entidade: não exige respeito nem homenagens. ele não tem autonomia para abater-se sobre quem ele bem quiser, porque ele não é uma coisa em si. ouça. agora mesmo. ele está falando.você escutou? não?

Noemi Jaffe

terça-feira, 29 de maio de 2012

alma

eu: o pronome pessoal do caso reto; a integralidade do emissor que percebe o mundo, expressando-se diretivamente, sem mediações. te: o pronome oblíquo na segunda pessoa; a relatividade do outro, o outro visto transitivamente como receptor do eu inteiro; a entrega. amo: a pessoalidade primeira e a temporalidade presente de uma ação que é mais que ação; é ação em forma de estado e reação; é a imersão da alma no corpo. como dizer isso impunemente?

Noemi Jaffe

domingo, 27 de maio de 2012

paixão


pelo que uma pessoa se apaixona? nada de substantivos abstratos, ideias, comportamentos. ninguém se apaixona pela inteligência, a generosidade, o caráter. o que move o pathos, essa febre que junta o corpo e a alma mais do que muitas religiões, é a pálpebra caída, o paletó amassado, dois canudos no lugar de um e o jeito mais aberto de pronunciar uma letra.

Noemi Jaffe

solidão

a solidão pode ser um presente. ela obriga ao silêncio, que é a melhor resposta para grande parte das perguntas. obriga ao espaço mais amplo e mais vazio, onde o corpo respira com mais extensão e mobilidade. ela nos faz ouvir a respiração, ver melhor a pupila azul da gata. ela dá mais peso e espessura ao tempo e quase é possível ouvi-lo passar. ela é cerimoniosa e não convencional como os encontros fortuitos. ela é uma companhia que vai se descobrindo aos poucos, sempre cheia de novidades e seus segredos só se revelam com muito cuidado e graça. ela habita a noite, mas vem me visitar também durante o dia, especialmente às tardes. senta embaixo do armário do corredor e quando eu a avisto, digo: olá, solidão, entre no meu quarto, você quer um café? ela nunca quer, não gosta de incomodar.

Noemi Jaffe

problema

algumas coisas um pouco difíceis estão acontecendo e fico pensando em como lidar com elas. acho que um ponto bom para enfrentar certas complicações é um ponto médio entre a aceitação do problema - ele existe -, e uma certa resistência - é preciso agir. ficar no nó entre essas duas forças, a que permanece e a que briga, sem acatar nem a inércia nem o combate remido. não digo que saiba fazer isso, mas estou tentando e só a tentativa já me acalma. carregar o peso e a leveza no corpo e na alma.

Noemi Jaffe

segunda-feira, 7 de maio de 2012

circunstância

Nonnetta
um amor ainda não realizado produz uma sensação de flutuação, de embalo ligeiro, de nostalgia do que ainda está por vir. rapidamente porém, chega a circunstância, líder máxima das forças militares da realidade, e abate a tiros ou simplesmente com um puxãozinho, o voo bobo do apaixonado. o amor que iria acontecer nem foi e já passou. já passou.

Noemi Jaffe

sexta-feira, 4 de maio de 2012

esquecimento

Lluvia
o saudável esquecimento da dor parece implicar também, e necessariamente, no esquecimento do prazer. isso faz surgirem algumas perguntas: será que o esquecimento da dor (de toda dor) é mesmo saudável? e será que o prazer também é esquecido porque sua lembrança provoca o medo de mais dores? será que quem consegue esquecer a dor teme também o prazer? uma espécie de termostato da memória parece ligar a dor e o prazer como sensações que guardam certas semelhanças, seja por efeitos físicos, psíquicos e até de origem supersticiosa ou cultural, não sei. sei que, por isso, temo esquecer a dor. temo que, com isso, minha economia mental me proíba de lembrar do prazer.

Noemi Jaffe