segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Fidelidade na encruzilhada

Angela Petsis
No sol alto, sem ostentação nem impaciência, se prolonga o teu caminho. Serenidade do que é ignorado: uma emersão futura te salvará em qualquer homem.

Esse relâmpago que torna a fraternidade possível, tanto na renúncia como na inocência e na esperança, é uma das propriedades da poesia. Mas nada autoriza o poeta a dar-lhe um nome definitivo e menos ainda a converter-se no profissional de sua dicção ou do seu descobrimento.

Usura do alucinado. Indubitavelmente, este mundo é teu. Mas só existe do teu despredimento. O poeta, testemunha da sua própria existência, coexiste com o mundo.

Todo poeta sabe que a palavra não é instrumento. É vida com os demais. Bem comum. Solidão comum. A declamação e a ortopedia do espírito ficam às margens. Impossibilidade, portanto, do poema fabricado ter acesso à terra dos homens, de alimentar sua viagem.

Afazeres da poesia: tornar toda justificação desnecessária.

Tudo ajuda, menos a retórica da pureza e a ordem dos eleitos. É preciso intercambiar na intempérie nossos sinais de reconhecimento com as coisas e com nossos irmãos.

Arriscar a incongruência para conhecer tua realidade, a realidade dos outros. Nada mais contrário ao teu próprio fluir do que a adoção de certezas de superfície.

Fatalidade das aparências. No meio do caminho, entre a concessão e o protesto, exposto a todos os excessos da ingenuidade e do cálculo, este amigo verdadeiro, este amante fiel, este lúcido conhecedor, é frequentemente confundido com seus inimigos: o narciso, o bêbado e o inconsequente.

Inevitabilidade de uma voz, de um homem real na encruzilhada, sem desprezo nem excessiva consideração pelas margens. A incandescência da palavra seu maior logro é função dos gestos silenciosos, frequentemente ignorados, do nadador sobrevivente e fraternal. Poesia modo de nadar, de estar presente, alheia às retribuições do espetáculo . Poesia irmã na solidão e no esquecimento. Poesia viril esperança entre os homens.

Edgar Bayley, in: Ni Razón ni Palabra. Tradução de Renato Rezende. In: Puentes. Poesía argentina y brasileña contemporánea. Selección y ensaio introductorio de Jorge Monteleone. Ed. Fondo de Cultura Económica. Antología bilingue. 

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