quarta-feira, 8 de junho de 2011

Todo poeta é um perdedor

Claire Streetart
Quando a vi pela primeira vez, tive vontade de escrever-lhe um longo poema que falasse de amor. Nada entendia de metáforas. Busquei algumas belas palavras no dicionário e coloquei no papel meus mais sinceros sentimentos.

Na sexta-feira a vi passando na rua. Entreguei-lhe o "tal" papel com meu "poema". Exultante com minha coragem. Ela passou o olho e sorriu com candura. Deu-me um beijo no rosto e se foi.

Um pouco mais tarde eu voltava para casa, deslumbrado com esse novo sentimento. No caminho havia um muro. Do outro lado desse muro - era alto e dava para um matagal - ouvi alguns gemidos. Subi com cautela para ver o que era, movido por minha curiosidade. Ela estava de joelhos, enquanto um cara gemia e gozava dentro de sua boca.

Passei o resto da noite pensando o que havia de errado com meu longo e sincero poema de amor.

Gustavo Rios, in: O Amor é Uma Coisa Feia. 7 Letras

terça-feira, 7 de junho de 2011


[...] para abrandar meu sofrimento, peguei uma das rosquinhas e a fui mastigando com vagar, porque, como disse Santo Ernulfo, "Se a vida não é doce, come doces".

José Roberto Torero & Marcus Aurelius Pimenta, in: Terra Papagalli. Ed. Objetiva

PEITO-PARELHA 2. Na pré-valsa, um tango cambaio.

Serenade for the Doll
minha querida solidão,
não fomente a vingança,
em tua andrógena ciumeira,
por, em noite tão formosa,
eu vestir-me tão faceira
pra entregar-me, carne e alma,
pro primeiro que passasse.

não se valia desse orgulho,
pra punir minha pungência
nessa hora em que meu pulso
impotente em seu fremido,
já bambeia em teus redores,
colossais, desertos, tíbios
aumentando meus abismos.

me compreenda no silêncio,
me guarneça em tua paisagem,
liquefaça-se em meu ventre,

eu, que tanto já fui água,
e conservo hoje, no peito,
uma dor, assim, tão

solidinha.

Raiça Bomfim

domingo, 5 de junho de 2011

Lazur

Fazia decalques de nuvem em beira d'agua. Bordando o que passa no que dilui. Se a barra da roupa branca deita nos vestígios de areia é por trazer a solidez das solidões das ruínas em pé-de-vento. Quantos restos a mantêm de pé?
Conta a idade do universo em fios de cabelos enquanto enumera o que possui: um corredor de águas vivas. Três sonhos com cavalos marinhos. Doze réstias de sol formigando no mar.

Um pedido-eco amarrado em fita vermelho-bonfim-urgente. Uma fé retorcida em figa. Uma alma ingiada de esperas.

O que ela não possui é esse sentimento pelicano no peito. Estende os braços para receber das ondas só o movimento dos ventos no subterrâneo das águas. Equiparar pulsar com pulsar. Na superfície dos olhos venta uma paz cor de desassossego. Tem areia do deserto assentada na íris desde quando. E um relógio de sol dilatado em suas pupilas, é quase certo que sua hora há de chegar. Por iluminâncias.

Cecília Braga

sábado, 4 de junho de 2011

os verdadeiros sentimentos adormecem na rotina e:

[...] Não sei como explicar a aparente falta de contornos entre os dias: véu negro trocando incessantemente de lugar com essa poça de luz. E o meu corpo acompanhando as mudanças com sorriso e entusiasmo de criança; e farfalhar de lágrimas.

Daniela Lima

* texto completo aqui.

Além alma (uma grama depois)

Meu coração lá de longe
faz sinal que quer voltar.
Já no peito trago em bronze:
NÃO TEM VAGA NEM LUGAR.

Pra que me serve um negócio
que não cessa de bater?

Mais me parece um relógio
que acaba de enlouquecer.

Pra que é que eu quero quem chora,
se estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?

Paulo Leminski, in: Distraídos Venceremos. Ed. Brasiliense
Nonnetta
[...] O amor é insaciável. Quanto mais obtém mais quer. Diferente da amizade que não aposta alto e se contenta em proteger o que obteve em vida. A amizade larga a roleta ao empenhar um único lance. O amor não. O amor se endivida até pedir falência. O amor tem uma fome obscena, pois devora a própria memória se necessário, devora a própria imaginação se preciso.

Fabrício Carpinejar, in: O Amor Esquece de Começar. Ed. Bertrand Brasil

quinta-feira, 2 de junho de 2011

da série Capitu
Na verdade, Capitu ia crescendo às carreiras, as formas arredondavam-se e avigoravam-se com grande intensidade; moralmente a mesma coisa. Era mulher por dentro e por fora, mulher à esquerda e à direita, mulher por todos os lados, e desde os pés até á cabeça. [...] os olhos pareciam ter outra reflexão, e a boca outro império.

Machado de Assis, in: Dom Casmurro. Ed. Avenida Gráfica


Sertão. Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte que o poder do lugar. Viver é muito perigoso...

João Guimarães Rosa, in: Grande Sertão: veredas. Ed. Nova Fronteira

quarta-feira, 1 de junho de 2011

horizonte

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte - Os beijos merecidos da verdade.

Fernando Pessoa, in: Mensagem. Ed. Nova Fronteira