segunda-feira, 30 de maio de 2011

resgate

Alice Ruiz, in: Rimagens
sou refém da lua cheia
ela entra pelo quarto
conhece-me os desejos
os beijos guardados
as sombras e crateras
do meu cativeiro

sou refém da meia lua
ela me sabe os pedaços
tristezas e segredos
invade-me à madrugada
assiste o amor arder
sem endereço

sou refém de mim
a lua é pre_texto.

Líria Porto, in: De Lua

domingo, 29 de maio de 2011

platônico

Amanda Cass
por te amar
tanto assim
revolvo céus
revolto mares
movo placas tectônicas

niña - louca -
reviro tudo
á tua volta
teu mundo vira
um haiti

aquele rumor
de tsunami
no havaí
(que não houve)

era você
nem aí.

Valéria Tarelho
Balthus
escrevo-te para dizer
morri daqui a um mês

foi morte natural
misto de saudade e tédio
não houve remédio

dorme sossegado
nada de missa
arranja outra namorada
mas atenção
tem muita mente insana
em corpo são

: muita canoa furada.

Líria Porto

Pragmatismo

eu te uso
tu me usas
não é abuso

é no máximo
o mínimo recurso
dos solitários.

Líria Porto

sábado, 28 de maio de 2011

"Deixe estar, – pensou ele um dia – fujo daqui e não volto mais."

do curta Uns Braços
Não foi; sentiu-se agarrado e acorrentado pelos braços de D. Severina. Nunca vira outros tão bonitos e frescos. A educação que tivera não lhe permitia encará-los logo abertamente, parece até que a princípio afastava os olhos, vexado. Encarou-os pouco a pouco, ao ver que eles não tinham outras mangas, e assim os foi descobrindo, mirando e amando. No fim de três semanas eram eles, moralmente falando, as suas tendas de repouso. Aguentava toda a trabalheira de fora, toda a melancolia da solidão e do silêncio, toda a grosseria do patrão, pela única paga de ver, três vezes por dia, o famoso par de braços.

Machado de Assis, in: do conto Uns Braços

sexta-feira, 27 de maio de 2011


Pedra sendo
Eu tenho gosto de jazer no chão.
Só privo com lagarto e borboletas.
Certas conchas se abrigam em mim [...]
Às vezes uma garça me ocupa de dia.
Fico louvoso [...]
E o sol me cumprimenta por primeiro.

Manoel de Barros

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Escrever cartas é mais misterioso do que se pensa.

Ana Cristina Cesar, in: Crítica e Tradução. Ed. Ática

No centro do furacão - fragmento

Vórtice, voragem, vertigem: qualquer abismo nas estrelas de papel brilhante no teto.

Queria tanto poder usar a palavra voragem. Poder não, não quero poder nenhum, queria saber. Saber não, não quero saber nada, queria conseguir. Conseguir também não - sem esforço, é como eu queria. Queria sentir, tão dentro, tão fundo que quando ela, a palavra, viesse à tona, desviaria da razão e evitaria o intelecto para corromper o ar com seu som perverso. A-racional, abismal. Não me basta escrevê-la - que estou escrevendo agora e sou capaz de encher pilhas de papel repetindo voragem voragem voragem voragem voragem voragem voragem sete vezes ao infinito até perder o sentido e mais nada significar [...] Eu quero sê-la, voragem.

Caio Fernando Abreu, in: Pequenas Epifanias / O Estado de São Paulo, 4/2/1987 / Ed. Agir

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O meu tempo

Andrés Sandoval
Não existe hora certa, existe o meu relógio,
lembrando sempre com seu tic-tac
que há a vida
para ser vivida,
que houve a vida
que não se viveu.
Não importa que o rádio renitente ruja
são tal hora e tal minuto,
hora oficial.
Afinal.
que há de oficial em minha vida?

Somente,
quebrando a paz exata deste espaço,
levando a mim a frente, sem retorno,
a tiquetaquear meu ser-serei,
existe o meu relógio, —
pulso falso,
sensato solilóquio, lento, certo,

que canta
o canto
do tempo
que é meu.

Ildásio Tavares

terça-feira, 24 de maio de 2011

24. A vida

Uma folha
é só uma parte da árvore
e não contempla todas as estações
(uma folha é só).

Uma gota de chuva nos vidros
não é mais chuva.
O vidro quando reflete
é espelho.

Eu não enxergo
a vida
tão cor-de-rosa assim.

Fabiana Borgia