sexta-feira, 14 de maio de 2010

Ninguém amando, pensa em pesos e medidas. Abrimos o corpo e alma, estamos entregues. No começo talvez haja períodos de vago susto: o outro nos define, o outro nos entende, o outro nos aquece e ilumina, somos melhores, mais belos e muito mais felizes por causa dele, sua voz fala por nós, sua mão age por nós, nunca perdemos com tamanha alegria nossa identidade para a recuperarmos no mesmo instante, transfigurada.

O outro, mesmo à distância, comanda nossa vida. Provavelmente comandamos a dele, e essa troca, sendo verdadeira, é um terremoto que transforma terra plana em montanhas magníficas, lagos calmos em grandes mares, faróis humildes em estrelas.

A importância do outro nos assustaria se pudéssemos ver com clareza, mas nossa lucidez está coberta de véus: mesmo assim, interrogamos: quanto de mim restou, quanto de ti sou eu?

A resposta há de ser que somos o outro quase inteiramente, e soa doce aos nossos ouvidos. Naturalmente, se alguém nos ponderasse que é preciso cautela, haveríamos de virar-lhe as costas e rir. E essa é uma das mais privilegiadas condições de ser - apenas e inteiramente - humano.

Lya Luft, in: Secreta Mirada. Ed. Mandarim

Canção a medo

Esse teu silêncio, essa voz
que murmura brevemente
em horas improváveis,
esse castigo de não te alcançar
me assusta:
de que tamanho este iniciante amor
que já me invade tanto, e aonde me leva?

De tal modo
me torna parte de ti
que não sei mais quem sou, que faço,
de que lado me volto para te ver
de longe ao menos, os olhos de promessa
e as mãos que, mal tocando as minhas,
conformam os meus dias.

Lya Luft, in: Secreta Mirada. Ed. Mandarim

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Consola-me

Alaya Gadeh
falo
do que não sinto
(minto)
invento memórias

conto histórias que não vivi

consola-me Pessoa
— todo poeta é mesmo
um fingidor

e eu finjo

dor e alegria
(finjo vida) e poesia.

Nydia Bonetti

Improvável

Deviantart
outra vez estendo meus braços
e tento
tento tento tento tocar

- não posso

cada vez mais tudo se distancia

- e a vida

que sempre me pareceu
intangível
agora - me parece improvável.

Nydia Bonetti

Desértica II

Anne Aubrey
tem chovido tanto
mas não chove em mim

árida
já nem versos brotam

processo irreversível
desertificação

dunas que se movem
sem direção.

Nydia Bonetti

Agônica

Deviantart
do que não somos
dizem
brotam flores
única e trágica
espécie
a florescer
hoje
no meu jardim.

Nydia Bonetti

quarta-feira, 12 de maio de 2010

DeviantArt_Toinjoints
Toda vez é uma primeira vez. O amado nunca parece um velho conhecido - ainda que seja. A sensação jamais é como as anteriores - mesmo que tenhamos amado muitas vezes.
"Você é diferente de todos, você é a minha chegada" é uma frase que poderia dizer a mais de uma pessoa, com absoluta verdade.

Pois há sempre em cada um de nós um pequeno, sagrado recinto no qual ninguém antes tinha entrado. Há sempre uma parte de nós que guardávamos para uma pessoal especial, um encontro único: e à sua maneira todos os encontros sinceros são únicos.

Por isso mesmo não há fase da vida para amar mais ou menos, com maior ou menor intensidade ou verdade. Sempre reservamos, para um amor, para aquele amor, quando ele chega, um trecho de canção nunca ouvida, um pedaço de praia ainda por conhecer.

Para ele temos delicadezas infinitas, queremos botá-lo no colo, proteger, acarinhar, iluminar, queremos ouvir seu riso, conhecer seus segredos, reviver sua infância, confortar seus medos. Nós agora importamos pouco, porque essa pessoa, amada tanto, domina com sua claridade toda a nossa vida.

Por sermos para nós mesmos surpresa e segredo, somos capazes de amar cada vez como uma primeira vez. Talvez esta seja a única e verdadeira pureza.

Lya Luft, in: Secreta Mirada. Ed. Mandarim

Canção da vez primeira

Caroline Feitosa
Guardei-me para ti como um segredo
que eu mesma não desvendei:
há notas na minha viola
que não toquei,
há praias na minha vida
que não andei.

É preciso que me tomes
além do riso e do olhar
naquilo que não conheço
e adivinhei;
é preciso que me cantes
a canção do que serei
e me cries com teu gesto
que nem sonhei.

Lya Luft, in: Secreta Mirada. Ed. Mandarim

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O pensamento da gente é a coisa mais rápida que existe. Tenho a impressão de que não tenho mais nenhuma missão a cumprir, de que minha vida está sem projeto a realizar. Sinto, agora, uma enorme preguiça e deixo-me ficar ouvindo os sons da noite. Alguns vêm da rua, mas a esses eu não dou importância. Os sons realmente graves vêm de dentro de casa. A maioria não é identificável. Fantasmas? Acabo de ouvir um rangido, mas ele não me deixa apreensivo; entrego-me às baratas. Ladrões? Estou tão cansado que já não quero saber de nada. Que roubem tudo. Que me matem; assustar já não me assustam. Uma porta bateu. Fico com ouvidos de tuberculoso: ouço o tique-taque do relógio de pulso na mesa-de-cabeceira. Fechei as portas? Não quero mais pensar nisso. Passei a vida pensando em fechar portas. De qualquer maneira, apesar da enorme dúvida, sei que as fechei. E também janelas, basculantes, tudo. Tudo fechado. Mas ouço um barulho diferente. Talvez pés levíssimos levando um corpo franzino, e um outro coração batendo, e outro pulmão respirando. Não pensarei mais no passado. Sei.

Rubem Fonseca, in: Os Prisioneiros / 64 Contos de Rubem Fonseca. Ed. Companhia das Letras

[...] O homem é um animal solitário, um animal infeliz, só a morte pode consertar a gente. A morte será o meu sossego.

Rubem Fonseca, in: Os Prisioneiros / 64 Contos de Rubem Fonseca. Ed. Companhia das Letras