quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Miragem


terrível amar as sombras
os fantasmas as ausências

estender os braços
inutil_mente.

Líria Porto

Ego

Barbara Cole
eu de mim não me queria
minhas grandes inconstâncias
minhas tantas insolências
meu saltitar cansativo
e de mim quase abortei.

então de mim fui ficando
fui gostando dessa mim
acomodando-me as beiras
e se eiras eu não tinha
agora tenho.

eu de mim já muito quero
pus-me à frente em minha fila
mas porém sem holofote
dessa luz eu não preciso
tenho eu clarão de mim.

Líria Porto

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Assombração

Lilya Corneli
Minhas sombras têm vida.
Está toda nelas
aquela que era minha,
que me fazia menina,
mexer o corpo
dançando,
abrir a boca
sorrindo,
fechar os olhos
amando.

Hoje, quando caminho
cabeça baixa,
melancólica,
elas ficam de chacota
zombaria.
Vão, mal-educadas
divertindo-se
atrás de mim.

Samantha Abreu
São milhas de estrada
e o vento toma o peito,
desfaz o nó na garganta,
desembaraça os cabelos,
esvaziamento.

O Amor bagunça nosso hall.
Visitas reparam,
casa revirada
sujeiras escondidas em cantinhos
esquecidos.

Samantha Abreu

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Absoluta

Eu sou uma mulher que pulsa.
E pulsa em mim, além da vida,
a vontade inerente à minha natureza
a vontade pura, transparente, avulsa,
que faz em mim a fera mais temida
e mais pulsante, e de maior beleza.

A mulher em mim se descompassa
e o pulso faz-se oculto pela blusa
que tem a cor e o tom da minha pele.
Mulher macia, gesto são, alma devassa,
que perde o rumo, a chave, se põe confusa
no medo enorme de que o sonho se revele.

Eu sou uma mulher que se eterniza.
Trago sementes mortas que o beijo ressuscita,
e que germinam paixões, flores e frutos.
Gosto da gota de suor quando desliza
e, quando abro o botão da rosa que me habita,
conto o segredo dos heróis mais dissolutos.

Patrícia Moresco

Cantiga anônima

Denise Alba
O que me desempenha?

Biografo-me nos dias
em calmaria,
nos livros suados à tinta
à revelia,
nos amigos distantes,
nos beijos do sim,
do não, da partida
nem sempre bem-vinda,
na maresia da família
a rolar cantorias
no luar do sol
nos dias de mar
a remar rima
e selvageria.

Homem-Lobisomem,
qual o seu nome?

Rosane Villela

domingo, 31 de janeiro de 2010

Tenho aprendido com o tempo que a felicidade vibra na frequência das coisas mais simples. Que o que amacia a vida, acende o riso, convida a alma pra brincar, são essas imensas coisas pequeninas bordadas com fios de luz no tecido áspero do cotidiano. Como o toque bom do sol quando pousa na pele. A solidão que é encontro. O café da manhã com pão quentinho e sonho compartilhado. A lua quando o olhar é grande. A doçura contente de um cafuné sem pressa. O trabalho que nos erotiza. Os instantes em que repousamos os olhos em olhos amados. O poema que parece que fomos nós que escrevemos. A força da areia molhada sob os pés descalços. O sono relaxado que põe tudo pra dormir. A presença da intimidade legítima. A música que nos faz subir de oitava. A delicadeza desenhada de improviso. O banho bom que reinventa o corpo. O cheiro de terra. O cheiro de chuva. O cheiro do tempero do feijão da infância. O cheiro de quem se gosta. O acorde daquela risada que acorda tudo na gente. Essas coisas. Outras coisas. Todas, simples assim.

Ana Jácomo

Canção para o Exílio

Minha terra sem palmeiras
tem poetas a cantar
A vida, eu quero inteira
mas ela fugiu de lá

Dos nossos céus roubaram estrelas
Somos vazos, mas sem flores
nesta terra o amor
é tão frio quanto a morte

Em versar, na pura noite
nem meus versos são de lá
desmataram as florestas
onde tinha sabiá

Minha terra tem amores
que Deus não quis inventar
em versar - eu choro as dores
que me fazem encontrar
e ainda sonham com palmeiras
onde canta o sabiá

Me permita Deus que eu morra
mas não volte para cá
que não sinta mais as dores
nem Gonçalves a cantar
a ilusão dessas palmeiras
e seu doente sabiá.

Sérgio Silva

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Claudia Degliuomini
Às vezes sinto vontade de distanciar-me do solo, às vezes preciso fazer transbordar o mundo inteiro de amor, às vezes necessito de êxtase para alimentar meu cérebro.
Quando não existe nada mais senão eu e o céu estrelado, a lua assume uma expressão infantil e não ouso mais lhe sorrir. Sinto poder ser uma criança também, são elas os verdadeiros observadores do universos.

Mian Mian, in: Bombons Chineses. Ed. Geração

Confesso

nem tudo que disse foi acerto,
que não reconheço quase nada como erro,
que volto atrás em promessas sérias,
que muitos chutes foram trave,
que trave, para mim, é um quase acerto,
o limite do engano... e isso é grave.

que era eu ao telefone
porque tem dias, poucos, que um alô é muito
e o muito, muitas vezes me cala.

confesso
quis também um silêncio salmoura
que me reconhecesse antes mesmo de ser alô
e também se calasse
que dissesse sei que foi você,
porque só seu silêncio me dói
e isso bastasse.

Roberta Silva