segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Anoitecer

Edward Hopper
A Dolores

É a hora em que o sino toca,
mas aqui não há sinos;
há somente buzinas,
sirenes roucas, apitos
aflitos, pungentes, trágicos,
uivando escuro segredo;
desta hora tenho medo

É a hora em que o pássaro volta,
mas de há muito não há pássaros;
só multidões compactas
escorrendo exaustas
como espesso óleo
que impregna o lajedo;
desta hora tenho medo.

É a hora do descanso,
mas o descanso vem tarde,
o corpo não pede sono,
depois de tanto rodar;
pede paz - morte - mergulho
no poço mais ermo e quedo;
desta hora tenho medo.

Hora de delicadeza,
gasalho, sombra, silêncio.
Haverá disso no mundo?

É antes a hora dos corvos,
bicando em mim, meu passado,
meu futuro, meu degredo;
desta hora, sim, tenho medo.

Carlos Drummond de Andrade, in: A Rosa do Povo. Ed. Record

5 comentários:

  1. "Hora de delicadeza,
    gasalho, sombra, silêncio.
    Haverá disso no mundo?"

    Se não houver tenho medo.

    =*

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  2. Tenho medo de tanta coisa, Drummond...

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  3. Drummond é fera né?
    Ótima escolha!
    =*

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