segunda-feira, 22 de agosto de 2011

(20.)

Tão em partes é a-você a quem me envio em forma de coisa ausente que... é como se eu tivesse que constituir você, como se toda a minha fala fosse um esforço pra constituir você. Você é a quem envio os meus buracos. Mas há o seu corpo impresso no que de mim nem sei, a sua voz, o real de seu inoculando vertigem no som sem substância desta voz que agora sou. Isso me salva de ser só esta voz, me salva (da salvação) de crer que o barro do vaso é mais importante do que o seu vazio, ou de que o vazio é mais importante do que o barro. E me salva ainda da crença a que, no desespero, eu poderia recorrer, a de alguma simetria entre palavra e vida. A disjunção entre o corpo e as palavras inventa as perguntas que somos.

Wesley Peres, in: Casa entre Vértebras. Ed. Record

8 comentários:

  1. E quem somos? Tenho me perguntado muito sobre isso... Adoro passear por aqui!
    Bjs!

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  2. maravilha de texto. escolhas super sensíveis e de bom gosto.

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  3. ah, a foto é linda!

    o texto também.

    e o layout, que mais dizer...

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  4. E por falar em envio... em dentre tantas coisas boas e lindas que a gente vê viajando por palavras tão bem tecidas encontrei essas que também falam de envio e tem graça e tem vida! Compartilhemos...

    Carta
    Se longe estiver
    Manda um sorriso teu
    Selado, endereçado
    Pelo carteiro de pés ligeiros
    A esse peito
    Que tanto quer humor de amor
    (Dan em Ócio das palavras)

    Agora diz se em todo envio, também não vai uma solicitação?! hummm...

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  5. Tem surpresa no meu blog pra você!

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  6. Não conhecia esse blog. Qta poesia, literatura pedindo leitura vagarosa...

    Gostei:

    "Mas há o seu corpo impresso no que de mim nem sei, a sua voz, o real de seu inoculando vertigem no sem substância desta voz que agora sou".
    BJo

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