quarta-feira, 20 de março de 2013

BUSCA DE UMA DEFINIÇÃO

Bradley Walker Tomlin
Sempre o menor ato

possível
neste tempo de atos

maiores que a vida, um gesto
com o que passa

apenas sem ser visto. Um vento parco

perturbando uma fogueira, por exemplo,
que encontrei outro dia
acidentalmente

na parede de um museu. Apenas
nada: alguns retalhos
de branco

lançados ao acaso contra o negro rotundo
do fundo, somente
um gesto parco
tentando não ser

mais do que é. E mesmo assim,
não está aqui
e a meus olhos jamais será questão
de tentar

simplificar o mundo
mas uma maneira de buscar um lugar
pelo qual entrar no mundo, uma forma de estar
presente
entre as coisas
que não nos querem - mas que necessitamos
na medida em que nós necessitamos
de nós mesmos. Faz apenas um instante
que a bela
mulher
que estava junto a mim
me havia confessado o quanto desejava
um filho
e como o tempo
começava a lhe faltar. Resolvemos
escrever cada qual um poema
usando as palavras "um vento
parco

perturbando uma fogueira". Desde então
nada

tem significado tanto como o pequeno
ato
presente nestas palavras, o ato
de tentar dizer

palavras

que apenas dizem nada. Até o final
quero igualar-me

a quanto o olhar

me traga, como se
no fim pudesse me ver

liberto
nas coisas
quase invisíveis

que nos conduzem junto a nós e todos
os filhos não nascidos

no mundo.

Paul Auster
(Ao olhar um quadro de Bradley Walker Tomlin) / Tradução de  Raul Macedo

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