quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Pena do pequeno jardim

Edouard Boubat

Ninguém pensa nas flores
Nos peixes
Acreditar
Que o jardim morre
E seu coração inchado debaixo do sol

Sua mente
Se esvazia lentamente, lentamente
De pensamentos verdes
E é como se a alma do jardim
Se isolou e apodreceu nos seus confins.
O pátio da nossa casa está sozinha
O pátio da nossa casa
Espreguiça-se
À espera da chuva duma nuvem desconhecida
E o lago da nossa casa está sozinho
Pequenas estrelas inexperientes
Caem à terra da altitude das árvores
E do meio das janelas descoradas do nosso aquário
De noite ouve-se o som de tossir
O pátio da nossa casa está sozinho.



O pai diz :
“já é tarde para mim
já é tarde para mim
eu levei o meu fardo
e fiz o meu trabalho”
e no seu quarto, de madrugada ao entardecer
lê uma epopeia
ou as notícias
o pai diz à mãe
“que se danem todos os peixes e aves
quando eu morrer então
que diferença fará haver um jardim
ou não haver
a mim chega-me a reforma”
por toda a vida a mãe
é uma existência estendida
na moldura do terror do destino
a mãe procura sempre no fundo de cada coisa
o finca-pé da verdade dum conselho
e pensa que o jardim está contaminada
às mãos da maldição de uma flor.
a mãe reza por todo o dia
a mãe é uma pecadora natural
e sopra por cima de todas as flores
e sopra para todos os peixes
e sopra para si
a mãe está à espera da aparição
e a providência que se há – de realizar.

O meu irmão chama cemitério ao jardim
O meu irmão ri-se do desfalecimento das ervas
E põe um número
Sobre os cadáveres dos peixes
Que se transformam em partículas pútridas
Debaixo da pele doentia da água
O meu irmão é viciado em filosofia
O meu conhece a redenção do jardim
No decesso do jardim.
Ele embebeda-se
E bate contra as portas e as paredes
E tenta dizer como
Está tão dorido e cansado e desiludido
Ele leva o seu desalento
Como o B.I. e o calendário e o lenço e o isqueiro e a caneta
Consigo para a rua
E seu desalento
É tão pequeno que por cada noite
Se perde na algazarra da baiuca.

E minha irmã que era amiga das flores
E quando a mãe a batia
levava as palavras ingénuas do seu coração
à sua sociedade carinhosa e calada
e por vezes convidava a família dos peixes
a um trato de sol e de doçura...
ela tem a casa do outro lado da cidade
ela na sua casa artificial
com os seus peixes vermelhos artificiais
e no abraço do amor do seu marido artificial
e debaixo de ramos de macieiras artificiais
cantando canções artificiais
e fazendo crianças naturais
ela
cada vez que nos vem visitar
e suja os cantos da sua saia na pobreza do nosso jardim
toma um banho de água de colónia
ela está grávida cada vez que nos vem visitar.

O pátio da nossa casa está sozinho
O pátio da nossa casa está sozinho
Por todo o dia
De detrás da porta
Se ouve o som do despedaçamento
E da obliteração
Todos os nossos vizinhos plantam metralhadoras e morteiros na terra dos seus jardins
Em vez de flores
Todos os nossos vizinhos cobrem
Os lagos de azulejos
E os lagos de azulejos
Mesmo sem sabê-lo
São esconderijos secretos de pólvora
E as nossas crianças pequenas enchem as suas pastas da escola
Com pequenas bombas.
O pátio da nossa casa está tonto.
Eu tenho medo do tempo
Em que perdi o meu coração
Eu tenho medo
Da imagem de inutilidade de tantas mãos

E da estátua de estranheza de tantas mãos
Eu estou sozinho como o estudante
que ama loucamente
A sua disciplina de geometria
E penso que se pode levar o jardim ao hospital
Eu penso...
Eu penso...
Eu penso...
E o coração do jardim está inchado debaixo do sol
E a alma do jardim se vai esvaziando lentamente
De memórias verdes.

Forugh Farrokhzad / Tradução de Mohsen Rostami

2 comentários:

  1. publicado anteriormente na revista "A sul de nenhum norte"

    (:

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  2. Nossa!

    Há bastante tempo não leio algo tão real rs...

    beijos

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