sexta-feira, 9 de setembro de 2011

I

Minha primeira lágrima caiu dentro dos teus olhos.
Tive medo de a enxugar: para não saberes que havia caído.

No dia seguinte, estavas imóvel, na tua forma definitiva,
modelada pela noite, pelas estrelas, pelas minhas mãos.

Exalava-se de ti o mesmo frio do orvalho; a mesma claridade da lua.

Vi aquele dia levantar-se inutilmente para as tuas pálpebras,
e a voz dos pássaros e a das águas correr,
- sem que a recolhessem teus ouvidos inertes.

Onde ficou teu outro corpo? Na parede? Nos móveis? No teto?

Inclinei-me sobre o teu rosto, absoluta, como um espelho.
E tristemente te procurava.

Mas também isso foi inútil, como tudo mais.

Cecília Meireles, in: Elegia / Antologia Poética. Ed. Nova Fronteira

3 comentários:

  1. A utilidade está na vida. Um abraço, Yayá.

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  2. A inultilidade esta nos outros.

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  3. melancolia e boniteza

    pra que utilidade?

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