sábado, 26 de fevereiro de 2011

A Fanny Abramovich

Rio, 20.10.83

Fanny, muito querida,

Estive hoje lá na editora e encontrei a tua cartinha. Aproveitei e roubei este papel (as editoras têm papéis ótimos) especialmente para te escrever. Grato pelo que você me diz sobre o Triângulo. Me fez um bem enorme. Foi difícil escrever tudo aquilo, e eu não tinha/não tenho a menor ideia de como poderia bater nas pessoas. Fiquei muito tempo mergulhado naquelas histórias – eram noturnas, eu tinha que escrever à noite e dormir de dia. Meu último ano em São Paulo não foi em São Paulo: foi dentro das histórias.

Estou aqui desde maio, no Hotel Santa Teresa – um lugar maluco, em cima do morro, com muito horizonte, passarinho, borboleta. Fico bastante só, não gosto do Rio, não gosto de São Paulo, tenho dificuldades com a maioria das pessoas. Mas acho que estou bem. Nado muito, respiro, voltei a fazer ioga – estudo (faz tempo) astrologia, e faço meus trânsitos diários num daqueles caderninhos quadriculados que você me deu. Em janeiro está saindo um livro novo – surpresa: é para crianças, chama-se As frangas. O primeiro que sair do forno mando, quentinho para você.

Gosto imensamente de você, embora a gente não se conheça. Um pouco pelo que conversamos, por telefone, muito pelo que li de você, outro pouco por amigo em comum, ex-Ventoforte, o Paulo César.

Você está bem? Os tempos estão tão negros, Fanny. Eu fico me movimentando no meio do cotidiano, procurando fazer/sentir coisas muito simples. Cada vez mais. Vezenquando não sei bem o que estou fazendo no Rio. Muito é porque aqui tem horizontes: preciso demais ver horizontes e coisas verdes em volta.

Quando/se você quiser/puder, me escreva. Eu gostaria muito. Estou procurando uma casinha (adoro casinhas) para mudar daqui, e acho que encontrei. Mas as cartas não se perdem. Te quero muito, muito bem. Que você esteja em paz, cheia de amor, vendo bonito. Um beijo grande do

Caio.

Caio Fernando Abreu, in: Caio 3D - O Essencial da Década de 1980. Ed. Agir

4 comentários:

  1. As cartas não se perdem.
    É mesmo, Caio :)

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  2. Os tempos estão mesmo negros!

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  3. que carta simpática desse moço.

    'eu fico me movimentando no meio do cotidiano, procurando fazer/sentir coisas muito simples. Cada vez mais'

    Vou colar isso! :)

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