domingo, 1 de agosto de 2010

Sugestões para atravessar Agosto

Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro — e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco. É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante: ir, sobretudo, em frente.

Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir. Dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons deixam a vontade impossível de morar neles; se maus, fica a suspeita de sinistros augúrios, premonições. Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos, de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzsche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem: qualquer problema, real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos.

Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos ou precauções — úteis a todos. O mais difícil: evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia, categoria originalidade... Esquecê-lo tão completamente quanto possível (santo zap!): FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.

Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu — sem o menor pudor, invente um. Pode ser Natália Lage, Antônio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o seu dentista. Remoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún, ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros, juras, projetos, abraços no convés à luz da lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.

Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se ou lamuriar-se, e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques — tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informação para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire, a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas — coisas assim são eficientíssimas, pouco me importa ser acusado de alienação. E isso mesmo; evasão, escapismo assumidos, explícitos.

Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente não se deter demais no tema. Mudar de assunto digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco:.

Caio Fernando Abreu, in: Pequenas Epifanias / O Estado de S. Paulo, 6/8/1995 / Ed. Agir

13 comentários:

  1. aah lindo, agosto é mês de meu aniversário, e vou ter coragem para enfrenta-lo sim!

    Beijos

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  2. caio, toca dentro!

    pode sim, minha querida. sempre que quiser!
    beijo

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  3. Em todos os agostos eu me recordo dessa crônica.

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  4. ah, esse caio, esse caio...

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  5. Agosto não vai ser nada fácil, melhor seguir as sugestões do Caio.

    Que se possa sonhar, é isso que conta. =)

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  6. Agosto vai ser difícil, melhor por em práticas algumas das sugestões do Caio. =)

    Beijos

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  7. Engraçado, agosto pra mim nunca foi um mês 'dificil'... nunca reparei...!

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  8. aii..
    atravessar esse agosto com muitos chás e cafés; filmes nas tarde eternas;
    atravessar esse agosto com um pesudo-sorriso bem esboçado;
    e inventar amores;

    Porque o que eu menos quero é "passar agosto esperando setembro".

    Beijos beijos.

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  9. Tenho tentado seguir à risca essa sugestão de sobrevivência, nao apenas para agosto, mas por toda a vida, risos.
    Então, menina "Ana" (hehehe), eu também adoro essas duas vertentes poéticas: música & poesia, uma é o verso da outra. Eu tenho esse defeito de escutar a mesma música seguidamente, inúmeras vezes, todo mundo aqui em minha casa também cantarolaram-na sem dar por si, a influência, risos. Ademais, uma gravidez de idéias, nunca é inútil.

    Beijos, querida, ótimos dias! Obrigada pela sua doce e agradável visita ao Canto, ele é seu!

    ;)

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  10. Agosto; que já tarda em passar.

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  11. Que venha setembro, que venha logo a primavera...Beijão querida!

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