terça-feira, 20 de abril de 2010

[...] Ah, a piedade é o que sinto então. Piedade é a minha forma de amor. De ódio e de comunicação. É o que me sustenta contra o mundo, assim como alguém vive pelo desejo, outro pelo medo. Piedade das coisas que acontecem sem que eu saiba. Mas estou cansada, apesar de minha alegria de hoje, alegria que não se sabe de onde vem, como a da manhãzinha de verão. Estou cansada, agora, agudamente! Vamos chorar juntos, baixinho. Por ter sofrido e continuar tão docemente. A dor cansada numa lágrima simplificada. Mas agora já é desejo de poesia, isso eu confesso, deus. Durmamos de mãos dadas. O mundo rola e em alguma parte há coisas que não conheço. Durmamos sobre Deus e o mistério, nave quieta e frágil flutuando sobre o mar, eis o sono.

Clarice Lispector, in: Perto do Coração Selvagem. Ed. Rocco

6 comentários:

  1. Não conhecia este trabalho...muito bacana!

    Abraço

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  2. 'Deus, como ela afunda docemente na incompreensão de si própria .'

    Ahh.. inebriada ainda pelos versos-prosa de Clarice..
    Perto do Coração. Selvagem..

    *BeijO moça!

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  3. tão bom entrar neste reino silencioso que crias, colhendo palavras que tocam sempre em algum lugar despercebido... as vezes dói, as vezes acolhe, as vezes consola.

    adoro tuas visitas, e já devias ter me dado um toque (kkk), mas cansei de 'urubusar', apesar da homenagem ao Paulinho Moura.

    E desde que vi uma placa em Santelmo, "El Patio del tiempo", esta frase, esta imagem, esta poesia ficou... e ao fim, me vejo sempre tentando segurar um pouco esse tempo que passa veloz, e nada melhor que criar um pátio, o meu, e trazer todas as coisas que amo: palavras, fotos, momentos, amigos, ... registrar a passagem do tempo sobre meus dias...

    Nossa, uma carta! Sorry!
    Volte sempre que puder em meu modesto pátio! Eu sempre passo pelo teu reino.

    Beijos carinhosos e sulinos

    Claudia

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  4. Querida!
    Não há nada de mais estrondoso pra mim, senão Clarice....! Estudo sua obra desde o primeiro ano da faculdade!
    Com o tempo deixamos que suas palavras-pedras e seus pré-pensamentos, nos leve a reinos desconhecidos dentro de nós mesmos!
    Esse trecho de Coração selvagem é uma das passagens mais interessantes da obra, pois nela, Clarice nos põe a pensar se somos de fato movidos pela piedade que nos leva a solidão e o silêncio, o medo, mais tarde, vem da ausência da resposta, da ausência talvez de todas as coisas, pensemos então, e se nos sobrasse apenas a piedade? como reagiríamos a ela? precisamos urgentemente deixar de vincular a essa palavra um sentido apenas pejorativo. Talvez esse seja outro grande esforço de sua obra, nos fazer pensar nos infinitos significados das coisas e das palavras!

    Desculpe, acabo que me deixo levar por devaneios, mas falar de Clarice pra mim é algo que realmente extrapola!
    Muito obrigado pela delicadeza!
    Queria poder ter maior contato com vc, trocar experiências literárias!
    Estarei aqui esperando para um chá!
    Grande beijo!
    Mell

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  5. NOSSA...

    vou confessar, encheu-me os olhos de l.....

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