sábado, 14 de abril de 2012

O guardador de rebanhos - fragmento

Sequência: Ann Texter

I

Eu nunca guardei rebanhos,
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

[...]

8/3/1914

Alberto Caeiro, in: Heterônimo de Fernando Pessoa / Obra Poética. Ed. Nova Aguilar, 1977

3 comentários:

  1. Bom dia!
    Adoro Fernando pessoa e seus Heterônios.Caeiro é meu preferido.
    Grande abraço
    se cuida

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  2. Uma verdadeira aula de Filosofia! Adoro

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