quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
está fechado:
"não há vagas"

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

Ferreira Gullar, in: Dentro da Noite Veloz / 25.5.63

4 comentários:

  1. De um dos meus livros preferidos,
    perfeita, e atual, lembrança.

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  2. Ferreira Gullar, maravilhoso poeta, sempre traduzindo nosso cotidiano atroz dentro da noite veloz.

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  3. ahhh que maravilhaa!,
    dia desses estava refletindo sobre a minha também apertada vida financeira lembrei desse poema e cheguei a conclusão:

    o salário mínimo - quizá micro - não cabe no poema

    ^^

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