
[...] E as coisas vinham docemente de repente, seguindo harmonia prévia, benfazeja, em movimentos concordantes: as satisfações antes da consciência das necessidades.
João Guimarães Rosa, in: Primeiras Estorias. Ed. José Olympio
"abri curiosa o céu"
Foi muito fácil dizer não ao homem que me convidou para correr o mundo. Mais fácil ainda foi dizer não ao mundo, a seus convites, a seus apelos.
Uma estrada é deserta por dois motivos: por abandono ou por desprezo. Esta que eu ando nela agora é por abandono. Chega que os espinheiros a estão abafando pelas margens. Esta estrada melhora muito de eu ir sozinho nela. Eu ando por aqui desde pequeno. E sinto que ela bota sentido em mim. Eu acho que ela manja que eu fui para a escola e estou voltando agora para revê-la. Ela não tem indiferença pelo meu passado. Eu sinto mesmo que ela me reconhece agora, tantos anos depois. Eu sinto que ela melhora de eu ir sozinho sobre seu corpo. De minha parte eu achei ela bem acabadinha. Sobre suas pedras agora raramente um cavalo passeia. E quando vem um, ela o segura com carinho. Eu sinto mesmo hoje que a estrada é carente de pessoas e de bichos. Emas passavam sempre por ela esvoaçantes. Bando de caititus a atravessavam para ver o rio do outro lado. Eu estou imaginando que a estrada pensa que eu também sou como ela: uma coisa bem esquecida. Pode ser. Nem cachorro passa mais por nós. Mas eu ensino para ela como se deve comportar na solidão. Eu falo: deixe deixe meu amor, tudo vai acabar. Numa boa: a gente vai desaparecendo igual quando Carlitos vai desaparecendo no fim de uma estrada... Deixe, deixe, meu amor.
8 de julho
antes que anoiteça, e já anoiteceu, busco reencontrar-me com as palavras. inútil. partiram. todas. um riso baixo ecoa da janela. abro-a. e lá estão elas, as minhas palavras, escondidas no canteiro de hortênsias cor-de-rosa, zombando da minha aflição. se acaso se escondessem por entre as hortênsias azuis, seria menor a minha sensação de abandono e solidão?
Há uma ausência por trás do azul quase indecente dessa tarde. Uma ausência pulsando em mim. Que se estende pela casa e faz do telefone mudo, morada e reduto. E da sexta, qualquer vã e vazia segunda, terça, quarta-feira. E tu, nascedouro de amores e ausências que tens sido, percebes o quanto só me sei e sinto? Alguma vez te soubeste assim? Acaso ainda sabes de nós? De mim?
Barcas
De que distância