
- Mas vamos, enxugue estas lágrimas; que lhe adiantam elas? As lágrimas não têm grande cotação neste mundo; e depois, uma pessoa da sua força não deve chorar nunca.
Lúcio Cardoso, in: Crônica da Casa Assassinada. Ed. Ediouro
- Clarice?
Assim foram pelos dias, que não eram muitos mais. Quatro, cinco, nem uma semana. Caminhavam descalços na areia, à noite, à beira-mar - juro. Devagar, as mãos se tocavam: a tua é tão longa, a tua tão quadrada. Ele não queria entrar noutra história, porque doía. Ela não queria entrar noutra história, porque doía. Ela tinha assumido seu destino de Mulher Totalmente Liberada Porém Profundamente Incompreendida E Aceitava A Solidão Inevitável. Ele estava absolutamente seguro de sua escolha de Homem Independente Que Não Necessita Mais Dessas Bobagens De Amor. Caminhavam assim, lembrando juntos de bossa-nova. Ela imitava Nara Leão: se-alguém-perguntar-por-mim. Ele, Dick Farney: pelas-manhãs-tu-és-a-vida-a-cantar. Nada sabiam de punks, darks, neons, cults, noirs. Eram tão antigos caminhando de mãos dadas naquela areia luminosa, macia de pisar quando os pés afundam nela lentamente. Carne de lagosta, creme, neve. Tão bom encontrar você, um cantinho, um violão.
Haverá um instante, uma linha divisória, uma revelação, um despertador interno que toca, e pronto, acordamos e dizemos, ainda sonolentos, acordamos e dizemos, pronto, acabou. Levantamos, nos vestimos, pegamos a bolsa ou a mala, e saímos. Lá fora, a luz da manhã de um dia qualquer, as pessoas nos ônibus indo trabalhar, as crianças de uniforme, o café com leite das padarias, tudo tão cotidiano, tão normal. Como é possível tudo tão cotidiano, enquanto lá dentro, num apartamento, num quarto, numa cama, lá dentro o amor que acaba de acabar. Ou vai o amor acabando desde o início, desde o primeiro beijo, o primeiro olhar, a intuição de que algo se desgasta, se desfaz. E, por mais beijos e olhares e todas as palavras felizes e tolas que possamos inventar, sempre algo à espreita que nos inquieta. Algo que, no exato instante em que começa, dá início também ao inevitável processo de extinção.
Rio, 20.10.83
"Sabe Madalena, que nunca mais nos veremos? De nada adianta tudo o que sentimos agora. Dentro de um ano... dois anos, tudo estará morto, não seremos mais do que duas desconhecidas". A face molhada de lágrimas desaparecia vagarosamente. Madalena sentia-se assaltada por uma atroz melancolia. Percebia que ela, como todo mundo, não era formada senão pela marca que deixam as pessoas passando em nossa vida. Na sua, todos tinham sido arrastados pela voragem do tempo; ficara a memória a viver a sua existência de farrapos, encarcerando-a para sempre ao sentimento de que nada vale senão pela experiência que fica. Tudo o mais é tolice, é vento que passa, sem deixar mais do que um rastro fugidio [...].
você pensava, o amor só poderia ser isso, um arrebatamento, um enlevo, e um corpo dentro de outro corpo, desfazendo-se numa impossível simetria, você pensava, o amor só poderia ser isso, essa conquista, essa captura, pois agora tudo meu era teu, a minha espera, o meu receio, e toda alegria e todo assombro, e até as palavras que eu não disse eram tuas, e você pensando que isso deveria ser o amor, quando se perde o medo, e nada mais te fere, e nada mais te escapa, agora que você era capaz de tudo, agora que minha desordem te envolvia e te enlaçava. Porque, finalmente, a nossa força e a nossa fraqueza e o vai-e-vem insistente e a distância, essa linha que nos unia, como se você estendesse entre nós um atalho, uma ponte, e repetisse, vezes sem fim, que era teu o que você quisesse, pois o amor era isso, quando, finalmente, se perde o medo, o medo que nos paralisa, o medo que nos detém, e se é capaz das coisas mais belas e espantosas, como amar e construir uma ponte para o outro corpo, a tua mão, e você pensava que aquilo deveria ser o amor, depois da guerra e da derrota e do medo, o amor, esse vínculo que nos une e nos destrói, e você pensava, o amor deve ser isso, estender uma ponte e atravessá-la e destruí-la para do outro lado, em outro corpo, a descoberta de algo que somente a dor poderia aplacar.
Nessa vida tudo é sempre mais ou menos, e o mundo só tem jeito se conseguirmos rir da cara dele. Como não, se a chantagem dos outros ousa matar o que é mais genuíno dentro da gente? Se até quando mais amamos somos traídos? Se inclusive nos momentos de maior tormento, em que choramos de verdade, o mundo não titubeia em passar seu trator por cima de nós?
Vendo alma seminova, em bom estado. Algumas manchas na altura do peito, mas nada que três boas manhãs de sol e uma ida ao circo não atenuem. Adaptável a praticamente todos os tamanhos de invólucros corporais. Bom perfume, mesmo não tendo cheiro de talco. Único dono, apesar de algumas investidas de especuladores infernais. Dou preferência a quem tenha os estranhos hábitos de sorrir quando olha o céu e de sonhar sem fechar os olhos. Exigência: o interessado deve se comprometer a alimentá-la pelo menos duas vezes por dia com Quintanas sabor tradicional ou cambalhotas sabor framboesa. Tratar com o proprietário.
Viver bem consiste em ser feliz na medida certa: no ponto em que tudo está em paz, mas a alegria não escapa por entre os dedos, doendo no peito e brilhando nos olhos. Felicidade demais dói. Felicidade indolor tem que ser como a água: incolor, do tipo que ninguém nota. Felicidade demais nos tira o sono, nos tira a fome, nos tira a paz. Felicidade demais é insalubre. Quero, para mim, uma felicidade do tamanho M, por favor!
Fim de tarde. Dia banal, terça, quarta-feira. Eu estava me sentindo muito triste. Você pode dizer que isso tem sido frequente demais, ou até um pouco (ou muito) chato. Mas, que se há de fazer, se eu estava mesmo muito triste? Tristeza-garoa, fininha, cortante, persistente, com alguns relâmpagos de catástrofe futura. Projeções: e amanhã, e depois? e trabalho, amor, moradia? o que vai acontecer? Típico pensamento-nada-a-ver: sossega, o que vai acontecer acontecerá. Relaxa, baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará. Essas coisas meio piegas, meio burras, eu vinha pensando naquele dia. Resolvi andar.
não que seja a madrugada
Prefiro quando a vida me vem
Quando eu morava em Salvador e o céu ficava nublado, impedindo a ida à praia, dizíamos que o tempo estava feio. Agora, morando no sertão, onde temos chuvas em apenas um ou dois meses do ano, quando o céu está nublado e carregado de nuvens, dizemos que o tempo está "bonito". A chuva ganha significados diferentes nestes dois contextos. É bem vinda, onde é escassa...
Tenho bobagens repentinas, carências urgentes, ausência de respostas, ansiedade concentrada, angústia que talha a carne, ciúme que dilacera o orgulho. Tenho saudade, receio e sorriso. Sentimentos vagos, carinhos inexplicáveis, paixões fulminantes e tesão noturno nas terças-feiras. Mania de escrever, de me desculpar e de errar sempre os mesmos erros. Você consegue se definir? Ou sempre falta alguma coisa?
Dia de limpar armários, revirar gavetas, separar o pouco que é meu do tanto que já se perdeu. Processo doloroso, é certo, mas cada vez menos: amadurecer tem suas vantagens. Cortar os laços deixa de ser tragédia sofocliana, olhos furados e um longo caminho de dor. Não: a graça está é no novo, e quem me dera viver só de começos. Trocar o amor que já se empoeirou pelas paixões sublimes, toques e lábios e o "eu te amo" pronunciado com tanto fervor e certeza. Fênix, quem me dera.
amanheceu chuva fina
Na verdade, de que serve a poesia se não é preciso inventar amores? Não será o verso feito de nostalgia daquilo que fica por fazer? No momento, o amor estava ali, à mão de se fazer. Há quanto tempo o coração não lhe pulsava nas mãos e na fronte, há quanto tempo ele não se debruçava sobre a vertigem de confirmar no seu um outro corpo? [...]
- Você gosta de estrelas?
Não posso escrever enquanto estou ansiosa ou espero soluções porque em tais períodos faço tudo para que as horas passem; e escrever é prolongar o tempo, é dividi-lo em partículas de segundos, dando a cada uma delas uma vida insubstituível.
Penso, Daniela, eu, esse maior dos idiotas — um confesso, contudo —, que existem só dois tipos de pessoas, a despeito de tudo mais: as que, no amor, precisam antes ser amadas e as que precisam amar.
[...] Dei-lhe a face que procurava, e ele amou-me até que, de um momento para outro, sem mesmo compreender bem por que, tudo espatifei. Quando Carlinhos partiu, pensei que não fosse me sentir tão só, sabia não amá-lo, mas desesperei-me, era insuportável tanta solidão.
verbo intransitivo, invariável, singular. Sinônimo de falta de ar. Espectro, perseguição, obsessão. Mente perturbada pela presença constante de uma imagem, figura ou sensação. O mesmo que calafrio, sede, fome, transpiração. Falta da inspiração. Talvez um sim e um não, uma indecisão. Vontade de saber onde está, fazendo o quê e com quem. Ciúme, traição, dependência, necessidade, insônia, tesão. Conjuga bem com agonia, companhia, fantasia. Na primeira pessoa do plural não admite separação, rompimento. Risco de progressão, perigo, contaminação. Algo fatal, indenominável, fixação. Oxigênio, sem respiração. Pressão. Desespero. Início de paixão. Tempo que não passa. Pessoa que não aparece. Solidão.
[...] você é amável, educado, mas sempre distante, sempre na defensiva contra qualquer espécie de relacionamento que possa ou pareça implicar algum compromisso. E, entretanto, eu te amo da maneira mais desinteressada possível: jamais quis ou esperei receber qualquer coisa. Sua posição não me deslumbra, seu prestigio nada significa para mim. Gosto de você, apenas.