
Não é raro, tropeço e caio. Às vezes, tombo feio de ralar o coração todinho.
Claro que dói, mas tem uma coisa: a minha fé continua em pé.
Ana Jácomo
Por que se calam os amantes?, pergunto, e não são apenas o casal amoroso, mas quaisquer pessoas ligadas (ou supostamente ligadas) por afeto. Calam-se por não saberem o que e quando falar.
Ela tira os óculos e guarda uma mecha de cabelo atrás da orelha. Faz frio no estúdio. Pensa vagamente no sonho que teve à noite enquanto canta my toes just touched the water.
O apartamento que montei para os nossos encontros era assim: nas paredes, cópias de bom gosto, um Branque, um Rouault, dois Picasso, um Miró e um Modigliani. O chão todo forrado, em grafite, aparelhos de som, discos (eruditos modernos, popular francês, folclórico espanhol, cantochão). Uma estante com livros (poemas, Sade, alguns eróticos, livros de arte). Uma geladeira. Todas as bebidas existentes. Um gravador, tão sensível que podia até captar a batida dos nossos corações apaixonados e onde, enquanto um esperava a chegada do outro, gravávamos a saudade que sentíamos, a angústia da espera, o desejo que nos consumia; e onde ainda registrávamos o som que fazíamos e as palavras que dizíamos enquanto amávamos na cama e no chão e na banheira, com água quente, sendo continuamente renovada, estimulando e acalmando ao mesmo tempo. Ficávamos horas, na banheira, beijando um o corpo molhado do outro, o gosto da água nas bocas, inventando posições de retempero e deleite.
Me sentia íntimo dela sem sequer saber seu nome. Não sabia se ela estava me vendo, se o meu olhar estava abrindo um buraco dentro dela como a sua presença abria em mim. Estava acontecendo algo maravilhoso, mas o incrível é que eu não me sentia exatamente feliz. Não entendia. As paredes giravam. Olhei pra fora. O sol despencava sobre as vidraças mas eu sentia frio. A vida tinha ficado um troço frágil de repente. Eu tremia. Vesti minha jaqueta. Não era um frio na pele. Estava com medo. Tive muito medo porque era uma forma de desespero. Totalmente novo. E violento. [...]
Faço quase nada. Comecei a procurar trabalho e começo de novo a me torturar, até que resolvo não fazer programas; então a liberdade resulta em nada e eu faço de novo programas e me revolto contra eles. Tenho lido o que me cai nas mãos. Caiu-me plenamente nas mãos Madame Bovary, que eu reli. Aproveitei a cena da morte para chorar todas as dores que eu tive e as que eu não tive. - Eu nunca tive propriamente o que se chama "ambiente" mas sempre tive alguns amigos.
Há uma grande curiosidade em torno de Clarice-gente. Ela circula muito pouco na área literária, foge aos programas de televisão e às tardes de autógrafo, e são pouquíssimas as pessoas que tiveram oportunidade de conversar com ela. "Clarice não existe" - dizem. "É pseudônimo de alguém que mora na Europa." "É uma mulher linda" - afirmam outros. "Não conheço, não" - diz um terceiro. "Mas acho que é homem. Ouvir falar que era um diplomata."
- Queria saber: depois que se é feliz o que acontece? O que vem depois? [...]
- Que ideia! Acho que não sei o que você quer dizer, que ideia! Faça a mesma pergunta com outras palavras...
- Ser feliz é para se conseguir o quê?
Clarice Lispector, in: Perto do Coração Selvagem. Ed. Rocco
Uma coisa eu acho que há:
O tempo, o tempo é versátil, o tempo faz diabruras, o tempo brincava comigo, o tempo se espreguiçava provocadoramente, era um tempo só de esperas, me guardando na casa velha por dias inteiros; era um tempo também de sobressaltos, me embaralhando ruídos, confundindo minhas antenas, me levando a ouvir claramente acenos imaginários, me despertando com a gravidade de um julgamento mais áspero, eu estou louco! E que saliva mais corrosiva a desse verbo, me lambendo de fantasias desesperadas, compondo máscaras terríveis na minha cara [...]